Desde o dia 16 de junho, um pernambuco de 55 anos é a maior autoridade brasileira da maior hidrelétrica do mundo. Há um ano e meio como diretor-técnico de Itaipu, Altino Ventura Filho passou a acumular o cargo de diretor-geral brasileiro da binacional. Ele substitui Euclides Scalco, que se licenciou para assumir a coordenação política da campanha pela reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso.
Em seu escritório, no Edifício de Produção, de cuja janela se contempla a bela catarata artificial formada pela água que desce pelo vertedouro da usina, Ventura Filho concedeu entrevista à Folha e falou sobre a situação atual e o futuro da hidrelétrica.
Folha - O que muda na administração de Itaipu com o fato de o senhor assumir a diretoria geral?
Altino Ventura Filho - Vou ter que trabalhar mais. Sou diretor-técnico e vou acumular a diretoria geral. Não haverá nenhuma descontinuidade na administração de Itaipu. Todas as prioridades, projetos e atividades serão preservados.
Folha - Quando entrarão em funcionamento as duas novas turbinas da hidrelétrica?
Ventura Filho - O cronograma prevê que elas entrem em operação no segundo semestre de 2001. O prazo para fabricação, montagem e testes levará entre 30 e 36 meses. Atualmente estamos na fase de licitação.
Folha - Quanto essas duas unidades vão custar?
Ventura Filho - Ficarão entre US$ 190 milhões e US$ 200 milhões. Esse custo é muito baixo. As primeiras avaliações que foram feitas, utilizando-se dados disponíveis no setor elétrico, indicavam valores na faixa de US$ 300 milhões. Os valores atuais representam cerca de US$ 140,00 por kilowatt gerado. Em nenhum lugar do mundo se consegue instalar unidades com esse custo. Isso é possível porque já temos a barragem, que representa o custo mais elevado de uma usina.
Folha - Qual será o impacto da instalação das novas turbinas na economia de Foz e da região Oeste?
Ventura Filho - O projeto das duas unidades é diferente do que foi a construção da usina. Para construir a barragem, foi preciso a mobilização de uma quantidade muito grande de pessoas. No auge, chegou-se a ter 40 mil empregados simultaneamente. Ao longo de todo o processo de implantação, estima-se que 120 mil pessoas trabalharam na obra. O que vamos fazer agora é diferente. As fábricas do equipamentos não estão em Foz, mas em outras regiões do Brasil e até no Exterior. Essa etapa não trará efeito direto na economia local. O que vai refletir aqui serão a obra de construção civil necessária e a montagem das turbinas. Estimamos que essas duas etapas deverão gerar mil empregos diretos na região. Mas são empregos qualificados, diferentes daqueles da fase de construção da usina. Isso terá um efeito multiplicador, que vai gerar necessidades de outros serviços.
Folha - Qual será o aumento na produção de Itaipu com as duas novas turbinas?
Ventura Filho - Elas ofertarão cerca de 1.400 megawatts a mais, o que representa um aumento de pouco mais de 10% da produção de energia. Hoje, com 18 turbinas, ofertamos 10,8 mil megawatts nas horas de pico. Com as duas novas, vamos ofertar 12,2 mil megawatts.
Folha - A Itaipu continuará sendo a maior hidrelétrica do mundo?
Ventura Filho - A Itaipu tem capacidade de produzir mais de 90 milhões de megawatts/hora, enquanto o projeto da usina de Três Gargantas, que está sendo construída na China, prevê uma produção na faixa de 84 milhões de megawatts/hora. No ano de 97 já ultrapassamos esse número, com 89 milhões de megawatts/hora. A usina de Três Gargantas será a maior do mundo em capacidade instalada. Itaipu será a maior em produção de energia, que é o parâmetro mais importante.
Folha - A Itaipu tem uma dívida de US$ 18 bilhões. Como ela foi gerada?
Ventura Filho - Até 96 ou 97, o investimento na Itaipu foi da ordem de US$ 11 bilhões, financiado basicamente pela Eletrobrás. A isso, somaram-se os juros e a atualização monetária.
Folha - Quando esta dívida estará totalmente paga?
Ventura Filho - Esses financiamentos foram negociados junto à Eletrobrás para serem quitados até 2023, quando completamos 50 anos do Tratado de Itaipu. Nessa ocasião, atingiremos o equilíbrio financeiro. Aí, a usina estará paga e passará a produzir energia a um custo extremamente baixo, só de operação e manutenção.
Folha - Quanto a Itaipu arrecada anualmente?
Ventura Filho - Nosso orçamento da venda de eletricidade para a Eletrobrás, Furnas, Eletrosul e a Ande (estatal paraguaia do setor elétrico) totaliza U$ 2,2 bilhões anuais.
Folha - Itaipu é considerada uma barreira para a consolidação dos projetos de hidrovias no Mercosul. Há a possibilidade da construção de eclusas?
Ventura Filho - Existe essa possibilidade prevista no tratado. O fato de uma hidrelétrica não dispor de uma eclusa não significa que o transporte esteja sendo inviabilizado através dela, porque há a possibilidade de se fazer portos à montante (acima da barragem) e à juzante (abaixo) e integrar o transporte por rodovias e ferrovias. Esse sistema pode ser mais econômico do que se construir eclusas. No caso de Itaipu, não se visualiza a implantação de uma eclusa a curto prazo. Ela é viável tecnicamente, mas o custo é muito alto. Estudos preliminares apontam que, devido à altura da barragem, que chega a 100 metros, uma eclusa custaria na faixa de US$ 1 bilhão.

mockup