Jerusalém, 15 (AE) - Cerca de 4,3 milhões de israelenses estão habilitados a ir segunda-feira (17) às urnas para eleger um Parlamento e um primeiro-ministro depois de uma das campanhas mais sujas da história do país e com a possibilidade de que a disputa pela chefia de governo seja resolvida já neste primeiro turno.
O grande favorito é o líder da oposição trabalhista, o ex-chefe do Estado-Maior Ehud Barak, que alcançou na sexta-feira sua maior vantagem sobre o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu nas pequisas - 13 pontos porcentuais, com 48,5% das intenções de voto, segundo sondagem do Instituto Gallup.
A desistência do primeiro árabe a concorrer à chefia de governo israelense, Azmi Bishara, e o apoio de uma pequena parcela dos quase 7% de indecisos podem dar a Barak os mais de 50% necessários para evitar o segundo turno, marcado para 1º de junho.
Netanyahu, do partido direitista Likud, já admitiu que não pode vencer no primeiro turno, mas, contradizendo as pesquisas, insiste que vencerá no segundo. "As pesquisas estavam erradas em 1996 e estão erradas agora", afirmou ele quinta-feira num encontro de campanha com seminaristas judeus, referindo-se ao leve favoritismo do trabalhista Shimon Peres nas pesquisas naquela ocasião. Peres acabou perdendo por menos de 1 ponto porcentual.
Mas, diferentemente de 1996, quando venceu - em meio ao terror provocado por uma série de atentados palestinos - com a promessa de "segurança e paz", nessa ordem, desta vez Bibi não conseguiu radicalizar sua campanha nem sensibilizar plenamente o próprio eleitorado conservador.
O primeiro-ministro obteve na semana passada o esperado apoio dos rabinos ultra-ortodoxos, mas seus apelos aos imigantes da antiga União Soviética - fundamentais para sua vitória em 1996 e decisivos para estas eleições - caíram no vazio.
Já Barak, que era quase desconhecido entre os 800 mil imigrantes russos (15% do eleitorado), deu-lhes especial atenção na campanha, ressaltando o fato de ser o militar mais condecorado de Israel e, ao mesmo tempo, a sua refinada educação
que fez dele, por exemplo, um elogiado intérprete de Rachmanioff ao piano.
Deu certo: o trabalhista passou Netanyahu (seu ex-comandado numa unidade de elite) na preferência desses eleitores - 47% a 46%, segundo pesquisa do Instituto Dahaf divulgada ontem. Barak também assumiu uma das bandeiras de Bishara, a igualdade de direitos entre os árabes israelenses (14% do eleitorado) e os judeus.
Esperando que um vitorioso Barak retome o processo e paz congelado por Netanyahu - que continua expandindo as colônias judaicas e não terminou de cumprir um acordo de desocupação de 13,1% da Cisjordânia -, o presidente da Organização de Libertação da Palestina (OLP), Yasser Arafat, acabou voltando atrás numa decisão crucial que poderia radicalizar a situação e beneficiar a candidatura de Bibi: a proclamação de um Estado palestino independente.
Arafat prometera insistentemente proclamar o sonhado Estado no dia 4, mas, com o apoio da cúpula da OLP, adiou a decisão para depois das eleições, negando a Netanyahu munição para a campanha eleitoral. O primeiro-ministro ameaçava anexar partes da Cisjordânia se o líder palestino não recuasse.
Bibi vangloriou-se por ter feito Arafat voltar atrás, mas sua popularidade continuou caindo. Tentando reverter as pesquisas, o primeiro-ministro, além de prometer impedir a criação de um Estado palestino e manter Jerusalém como capital eterna e indivisível de Israel, recorreu a táticas que causaram polêmica, como a de divulgar anúncios com imagens de ônibus calcinados por atentados palestinos em 1996 e a frase: "Sob o governo trabalhista, o medo reinava."
Parentes de vítimas ficaram indignados, os imigrantes russos - geralmente alheios a essa realidade - não se sensibilizaram e os trabalhistas somaram pontos denunciando o "uso cínico dos atentados".
Netanyahu tentou recuperar terreno com os imigrantes visitando a Rússia e anunciando benefícios especiais para 30 mil veteranos de guerra vindos da ex-URSS. Mas, no mesmo dia, um ministro de seu gabinete, o ultra-ortodoxo Eli Suissa, baixou o nível da campanha exatamente contra o partido de imigrantes Yisrael ba-Aliya - rebatendo uma acusação de discriminação com a de que a agremiação estaria pretendendo trazer ao país "sacerdotes, prostitutas e vigaristas" da Rússia.
Restava a Bibi o que um jornal israelense chamou de "arma do juízo final": ordenar o potencialmente explosivo fechamento de escritórios da Casa do Oriente, a sede da OLP em Jerusalém Oriental. Dessa vez, foi a própria Justiça israelense que lhe negou munição, determinando o adiamento da medida.
Qualquer que seja o vencedor, as pesquisas indicam que nem o Partido Trabalhista nem o Likud obterão maioria absoluta no Parlamento de 120 cadeiras, o que forçará a formação de um governo de coalizão.

mockup