Israelenses e palestinos firmarão acordo hoje Do enviado especial Pepe Escobar
Damasco, 02 (AE-AP) - Madeleine Albright deixou nesta quinta-feira (02) o Egito sem testemunhar o pretendido acordo que sucederá aos de Oslo e Wye. Israel e a Autoridade Palestina não resolveram suas últimas divergências antes da partida da secretária de Estado norte-americana para Israel, mas, aparentemente, fizeram isso pouco depois.
Um funcionário egípcio anunciou que a nova versão do acordo para a desocupação de 13% da Cisjordânia será firmado amanhã no balneário egípcio de Sharm el-Sheikh.
Albright, por sua vez, chega depois de amanhã a Damasco. A Síria é a chave da torturante equação no Oriente Médio. Albright será obrigada a exercer todos os seus formidáveis poderes de persuasão para conseguir um objetivo fundamental: marcar uma data para o reinício das negociações com Israel, e voltar a incorporar a Síria e Líbano ao processo de paz.
Washington estava eufórica. Já em Damasco e Beirute os ecos são muito mais ambíguos: a impressão generalizada é de que Barak vai querer esticar o processo ao máximo para aproveitar-se das eleições norte-americanas no fim do ano 2000, exercer uma pressão não exatamente sutil sobre o governo Clinton e extrair ainda mais concessões.
Do chefe da agência oficial Sana ao Al-Baath - o jornal do hegemônico Partido Baath -, o tom em Damasco é unânime: se Washington o levar a sério, o processo de paz volta a fortalecer-se. Do ponto de vista sírio, segundo o jornal Tishrin
"o papel norte-americano de patrocinador honesto e objetivo é indispensável", e "Europa e Rússia também devem trabalhar pela paz".
Os sírios exigem clareza: para eles, Israel quer usar a visita de Albright para dar um novo impulso às relações Israel-EUA, e exercer mais pressão sobre os árabes. Os sírios, ao mesmo tempo, pensam que os Estados Unidos e os árabes querem realmente impulsionar o processo de paz para uma solução justa e ampla do conflito árabe-isralense.
As discussões de paz entre Síria e Israel estão congeladas desde fevereiro de 96. Para a Síria, devem ser retomadas no ponto em que foram interrompidas - quando o então primeiro-ministro Yitzhak Rabin prometeu uma retirada total israelense das Colinas do Golan, capturadas na Guerra dos Seis Dias (1967).
O governo Barak nega a promessa de Rabin. Mas acredita-se nas grandes capitais árabes que Barak, em tese, está pronto a retirar-se do Golan em troca da paz com a Síria. Até mesmo os habitantes de dois kibutzim nas colinas ocupadas estariam dispostos a mudar-se no caso de um acordo de paz. Mais de 17 mil israelenses vivem em 22 aldeias e vilas no território ocupado.
Se Barak em princípio aceita uma retirada, ainda não entrou em detalhes. Só deixou vazar que tudo depende das garantias de segurança dos sírios. A percepção em Damasco e Beirute é de que um acordo incluindo concessões a Damasco pode ser viável a médio prazo.
Sírios e libaneses têm dedicado todas suas horas livres a tentar decifrar as intenções de Barak. É um esporte perigoso. Em campanha eleitoral, Barak declarou que Israel "sob nenhuma circunstância retornará às fronteiras de 67". Em relação aos palestinos, os sírios apostam que Barak prefere uma separação física entre israelenses e palestinos, e uma possível confederação palestino-jordaniana. Um Estado palestino não estaria de maneira nenhuma em seus planos.
Os sírios suspeitam que a intenção de Barak seja de fato separar as vertentes síria e libanesa do processo de paz - que estão absolutamente interligadas. A promessa de Barak de uma retirada unilateral das tropas israelenses do sul do Líbano até junho do ano 2000 - com ou sem acordo com a Síria - pressupõe a possibilidade de um vácuo, a ser inevitavelmente ocupado pelo Hizbollah. Nesse caso, Barak poderia transferir toda a responsabilidade para as autoridades sírias e libanesas se a resistência libanesa continuar sua luta contra Israel.
Albright, em Damasco, vai procurar estreitar ainda mais uma relação entre Estados Unidos e Síria muito mais descontraída do que se imagina. Bill Clinton já se encontrou várias vezes com o "califa" Hafez Assad. A Síria é uma sociedade militarizada, mas com os EUA fornecendo US$ 2 bilhões anuais de ajuda militar high-tech a Israel, a balança não é exatamente equilibrada. Neste crucial momento histórico, a credibilidade dos EUA como mediador confiável de paz está totalmente em jogo. Mas será ingênuo esperar resultados concretos a curto prazo.





