Luiz Prado/Agência EstadoComemoraçãoParente beija o rosto de Lubna Patrícia, filha de Lamia, que sorri após receber notícia da libertação da mãe em Israel. Lamia chega ao Brasil amanhã e será recebida em casa com um almoço tipicamente brasileiro: feijoadaAs autoridades israelenses expulsaram ontem do país a brasileira Lamia Maruf Hassan, imediatamente após a libertação dela, conduzindo-a ao aeroporto internacional de Tel-Aviv, onde embarcou para Londres e em seguida para o Brasil.
Lamia, que fora condenada à prisão perpétua em 1987, sob acusação de participar do sequestro e assassinato de um sargento israelense, não pôde assim viajar para a Cisjordânia, onde a esperava o irmão Taissir, a fim de participar da solenidade de recepção às palestinas libertadas ontem (as autoridades israelenses libertaram oito prisioneiras ontem e o restante de um total de 31 recuperará a liberdade nas próximas horas).
A cerimônia foi preparada pessoalmente pelo presidente da Autoridade Palestina, Yasser Arafat, em Ramallah, na Cisjordânia. Enquanto as companheiras seguiam para Ramallah, Lamia, que foi a primeira a sair da prisão, era colocada num avião, no Aeroporto Ben-Gurion.
A deportação impedirá, ao que tudo indica para sempre, que Lamia veja seu marido Taufic, cumprindo pena de prisão perpétua em Israel, sob acusação de envolvimento direto no assassinato do sargento.
A deportação de Lamia foi uma hipótese levantada na segunda-feira pelo advogado de Lamia, o brasileiro Ayrton Soares, que está em Israel. Mas ele acreditava que havia poucas possibilidades de que isso fosse concretizado, porque as autoridades israelenses não haviam solicitado ao consulado do Brasil a papelada necessária.
Lamia foi retirada da prisão de Hasharon, perto de Tel-Aviv, colocada numa caminhonete branca e conduzida imediatamente para o aeroporto. Só depois que a brasileira tinha saído da prisão é que as companheiras começaram a ser libertadas, seguindo para Ramallah, a fim de participar da recepção solene, com a presença de Arafat.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, em declarações à imprensa durante visita a soldados feridos no sul do Líbano, afirmou que sua decisão de firmar a recomendação para libertação de Lamia e das companheiras, incluindo as condenadas por ‘‘crimes de sangue’’ (assassinatos), foi destinada a cumprir compromissos assumidos pelos antecessores trabalhistas (governo de Yitzhak Rabin).
‘‘Não é uma tática e sim o cumprimento de acordos’’, disse Netanyahu. E acrescentou: ‘‘Esperamos agora que o outro lado faça sua parte.’’ O governo israelense espera que a OLP cumpra sua promessa de mudar seu estatuto, no capítulo que prega a destruição de Israel, evite atividades políticas no setor oriental de Jerusalém e combata os grupos palestinos que se opõem aos acordos de paz.
Apesar das observações de Netanyahu e da relutância do governo de Israel em libertar as prisioneiras (o processo demorou um ano, por causa das formalidades jurídicas e restrições), Arafat reagiu ontem com satisfação e se mostrou otimista. ‘‘Esta é uma grande contribuição para o processo de paz’’, afirmou o líder da OLP, em declarações aos jornalistas em Ramallah. E acrescentou: ‘‘Não há dúvida de que (a libertação das prisioneiras) ajudará nas relações entre os dois povos.’’
A casa dos pais da brasileira Lamia Maruf Assan ganhou vida nova ontem. Para comemorar sua liberdade, parentes e amigos reuniram-se em torno de uma farta mesa de salgados e docinhos árabes. Lamia chega ao Brasil amanhã, por volta das 9 horas, e será recebida em casa com um almoço tipicamente brasileiro: feijoada.
Sua mãe, Fátima Massud, de 63 anos, contou que Lamia está com muita saudade das comidas daqui. ‘‘Vou fazer tudo que ela gosta’’, disse, tremendo muito. ‘‘Desde que ela foi presa eu não durmo direito.’’ Fátima contou ter perdido a vontade de ir a festas, comprar vestidos novos ou saborear bons pratos.
Há dois anos e meio, Fátima fez sua última visita à filha - acusada, em 1984, de participar do sequestro e assassinato do sargento israelense David Manos. Por telefone, falou com Lamia no réveillon. ‘‘Não dá para definir o que estou sentindo’’, disse. ‘‘É muita emoção.’’ De acordo com ela, há uma semana a família está na expectativa da notícia da liberdade. ‘‘Só vamos acreditar que é verdade quando ela chegar.’’
O pai da brasileira, Maruf Hassan, de 65 anos, falou pouco, mas estava bastante satisfeito. ‘‘Sabia que um dia ela iria sair’’, comentou. Hassan tem oito filhos, quatro homens e quatro mulheres. Seus dois filhos mais velhos vivem em Israel e, com a prisão, Lamia também ficou lá. ‘‘Estou feliz de ter minha filha de volta, longe de tanto sofrimento.’’
Aos 11 anos, Lubna Patrícia - filha de Lamia - mal conhece a mãe. Quando tinha apenas nove meses, Lamia foi presa e ela passou a morar com os avós. Mesmo a distância, demonstra ter enorme carinho pela mãe. ‘‘Quando soube da notícia, meu coração disparou’’, contou, enquanto brincava com os primos na rua de casa. ‘‘Estou superfeliz.’’

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