Israel e Grécia no centro do turbilhão curdo Do correspondente GILLES LAPOUGE
Paris, 17 (AE) - Os grupos de curdos enlouquecidos, que atacaram consulados e embaixadas da Grécia nas capitais européias, se acalmaram.
Em contrapartida, o terremoto político, provocado pela captura do líder separatista curdo, Abdullah Ocalan (chefe do PKK - Partido dos Trabalhadores do Curdistão) e sua transferência para a Turquia, continua a abalar o Ocidente. As ondas de choque atingem a Grécia, depois a Turquia, Estados Unidos e Israel e, mais moderadamente, a União Européia.
A Grécia é o país que sofre a "descarga" mais violenta. Este país, inimigo juramentado da Turquia, está fazendo de tudo para não aparecer como cúmplice do governo de Ancara e como o país que entregou à justiça turca o chefe da rebelião curda.
A confusão é total e o absurdo é retumbante.
É óbvio que a Grécia faça questão de desmentir ter participado de uma operação tão imbecil e "antinatural" como esta. Mas, supondo que se dê crédito aos seus protestos de inocência, então ela cessa de ser "maquiavélica" para tornar-se simplesmetne "estúpida".
Não estranha que a opinião pública e a imprensa gregas se lancem contra o governo de Costas Simitis em Atenas : "Waterloo!" "Terça- feira Negra!", "Ciclone" - são alguns dos títulos dos jornais. Os artigos observam que a Grécia se encontra isolada, ridicularizada e inimiga do mundo inteiro. Os curdos a querem mal. Os turcos continuam a odiá-la. A comunidade internacional e a União Européia estão furiosas porque a Grécia as manteve na ignorância frente às manobras de Nairóbi. "O povo grego está envergonhado. Foi humilhado!"
Por outro lado, alguns gregos não acreditam que o governo de Atenas seja inocente. O jornal de direita Eleftheros Typos qualifica o primeiro-ministro Simitis de "traidor". O jornal comunista Rizospastis explica que a Grécia entregou o chefe curdo ao inimigo figadal da Grécia, a Turquia, pelo seguinte motivo: "O governo de Simitis dá tudo para servir aos interesses da OTAN e dos norte- americanos na região".
Portanto, os norte-americanos são por sua vez citados, seja como acusados, seja como testemunhas. A Turquia mantêm relações estreitas com os Estados Unidos, porque é considerada essencial, mesmo depois da dissolução da União Soviética, para a ordem estratégica da região. É por isso que o povo curdo, esses 25 milhões de cidadãos sem Estado, jamais puderam obter a convocação de uma conferência para discutir sua tragédia, como outros "povos sem Estado", como Kosovo ou os Palestinos tiveram esse direito - e o mundo se alegra com isso..
Atualmente, a Turquia constitui um aliado muito precioso para os Estados Unidos porque é da base turca de Incirlik (no Sul do país) que decolam os aviões norte-americanos encarregados de punir, de castigar e, se possível, de arrasar o inimigo passional dos Estados Unidos na região, o Iraque.
Um fato ilustra a importância da base de Incirlik: no dia 15 de fevereiro, o chefe turco Bulent Ecevit recebeu o vice-primeiro- ministro iraquiano, Tarek Aziz, que exigiu de Ancara o fechamento da base de Incirlik aos aviões norte-americanos. Na mesma tarde desse encontro, o chefe curdo Ocalan foi detido em Nairóbi e levado preso para a Turquia. E o líder turco, Bulent Ecevit, fazia saber aos norte-americanos que a base de Incirlik continuava à sua inteira disposição.
Relembremos igualmente que há alguns dias, exatamente em 3 de fevereiro, o Departamento de Estado se dirigiu aos países "que poderiam abrigar o chefe curdo pedindo-lhes para ajudar a Turquia em seus esforços para julgar Ocalan".
Será então que deveremos atribuir à CIA a captura, ainda obscura, do chefe curdo? Esta hipótese é geralmente descartada com este argumento implacável: "Não, não pode ser a CIA, pois a captura de Ocalan foi bem-sucedida!" E então? Qual o serviço especial que funcionou? O MIT (serviço de informação da Turquia) . Contudo, os especialistas afirmam que o MIT é ainda menos eficiente do que a CIA para montar uma operação tão sutil.
E então? Vamos reencontrar nosso caro e velho Mossad (serviço secreto israelense), que há 30 anos nos acostumou a esses golpes, as essas "infiltrações acrobáticas", a esses relâmpagos e a esses trovões. O Mossad pode fazer o que quiser e onde quiser, seja qual for o lugar do Planeta. E, no caso de Ocalan, não era exatamente um lugar muito estranho.
Era no Quênia, um país muito próximo a Israel. Recentemente, a amizade entre Israel e o Quênia ficou manifesta: Israel despachou para Nairóbi uma importante equipe de socorro por ocasião do atentado com um carro-bomba perpetrado em agosto de 1998 contra a embaixada norte-americana. Nairóbi é o mais importante posto diplomático de Israel em toda a áfrica.
E não é tudo: Israel mantém relações ainda mais estreitas com o outro autor do romance, a Turquia. Desde 1996, Jerusalém e Ancara intensificam seus contatos, seu intercâmbio comercial e militar. Os caças israelenses estão autorizados a penetrar nos céus da Turquia e, em troca, Israel contribui para a modernização da frota aérea turca.
Recentemetne, assistimos a um espetáculo: manobras navais conjuntas, reunindo Estados Unidos, Israel e Turquia ao largo de Ancara.
Estas insinuações circulam em todas as capitais desde a incompreensível e estrepitosa captura do temível e muitas vezes cruel líder curdo. Isso levou o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, a desmentir: "Israel não tem absolutametne nada a ver com esta história".





