Isenção de visto para chineses e indianos surpreende diplomatas
Receio ocorre por envolver países considerados de maior risco migratório
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quarta-feira, 30 de outubro de 2019
Receio ocorre por envolver países considerados de maior risco migratório
Talita Fernandes e Ricardo Della Coletta – Folhapress 
Brasília - A decisão do presidente Jair Bolsonaro de isentar vistos para turistas chineses e indianos é alvo de preocupações de setores do Ministério de Relações Exteriores. Embora tenha o apoio do chanceler Ernesto Araújo, a medida é vista com ressalvas por quadros da diplomacia e interlocutores no governo. O receio ocorre não apenas pela ausência de reciprocidade, mas por envolver dois países considerados de maior risco migratório e também por questões de segurança.

Diplomatas envolvidos nos preparativos da viagem de Bolsonaro por Japão, China e países árabes relataram à reportagem terem sido surpreendidos com a medida, cujo anúncio não estava previsto. De acordo com eles, estava em estudo uma flexibilização da exigência do visto, mas não uma completa isenção.

Um dos argumentos levantados contra a dispensa do visto para chineses e indianos é o mesmo apresentado quando Bolsonaro decidiu conceder a isenção para turistas de Estados Unidos, Austrália, Japão e Canadá: a falta de reciprocidade. Os brasileiros que quiserem viajar aos dois países asiáticos terão de solicitar autorização aos serviços consulares, como ocorre atualmente. No entanto, há outros fatores que causam apreensão no Itamaraty.
O turista indiano, assim como o chinês, é considerado de alto potencial no futuro. A Índia registra há anos elevados índices de crescimento, com uma classe média ascendente. Interlocutores no governo, porém, relataram receio em relação à segurança com a isenção do visto para a Índia, uma vez que já houve casos de pedidos de visto negados na Índia de pessoas com perfil suspeito de radicalização islâmica.
Os diplomatas que acompanham o tema ressaltam que esse perfil é de uma minoria em relação ao número total de solicitações, mas consideram a exigência de visto importante para identificar eventuais casos problemáticos antes que a pessoa desembarque no Brasil.
Hoje, a China é o país que mais envia turistas para o mundo, com 141 milhões de pessoas por ano viajando para o exterior. Em 2030, o número deve chegar a 300 milhões. O Brasil, porém, recebe poucos deles: são 60 mil chineses anualmente, segundo o Ministério do Turismo.
O turista chinês é cobiçado internacionalmente, principalmente nos países europeus (onde há exigência de visto). Lá, os viajantes provenientes da China estão entre os que mais gastam, razão pela qual lojas de luxo e redes hoteleiras cada vez mais investem na contratação de pessoal com conhecimento de mandarim. Diplomatas ponderam, contudo, que poucos países dispensam chineses e indianos de visto, ainda mais sem exigir a reciprocidade para seus cidadãos.
China e Índia, argumentam diplomatas, vivem situações diferentes de países isentos recentemente de visto como Estados Unidos, Austrália, Japão e Canadá. Estes são países desenvolvidos, de renda alta e com baixos índices de imigração irregular.
Bolsonaro anunciou a isenção para os chineses após jantar com empresários em Pequim, na quinta-feira (24). Na mesma ocasião, disse que o governo deve fazer o mesmo em relação aos indianos.
Araújo, que estava ao lado do presidente durante o anúncio, argumentou por sua vez que "não necessariamente" o Brasil exigirá reciprocidade das duas nações com os visitantes brasileiros. Segundo o chanceler, ainda não há prazo para o início da aplicação da medida aos dois países, porque deve haver forte demanda. Para surtir efeito, a dispensa do visto precisa ser publicada em um decreto, como ocorreu no caso dos outros quatro países isentados mais cedo neste ano.


