Mário CésarSangue sobre terraAdilson Cruz: Adenilson ‘‘Saru꒒ só queria uma área para plantar O mecânico Adilson da Silva Cruz, de 27 anos, disse ontem que a morte de seu irmão Adenilson da Silva Cruz, o Nego Saruê, de 25 anos, deu-se numa emboscada armada pelo cacique caingangue Reginaldo Sales Batarse, de 27 anos, e um outro índio. ‘‘Testemunhas viram meu irmão morrer. Os índios chegaram ao distrito e mandaram chamar Adenilson. Ele foi com o cunhado até o local onde estava o cacique. Ao chegar perto, o índio que estava dentro do carro disparou um tiro contra meu irmão. Em seguida o cacique descarregou a arma sobre ele’’, denuncia.
O corpo de Saruê, ex-posseiro da Gleba do Cedro que liderou invasões à reserva indígena Barão de Antonina, foi enterrado ontem à tarde em São Jerônimo da Serra (100 km ao sul de Londrina). O clima era de dor e de revolta. Ele foi assassinado domingo de manhã em São João do Pinhal com três tiros que teriam sido disparados pelo cacique. Adilson diz que o homem que acompanhava Saruê escondeu-se atrás de um poste e escapou dos tiros.
A história apresentada ontem à Folha diferencia da versão dada no domingo à polícia, segundo a qual o cacique foi agarrado por trás por Adenilson, enquanto trocava um pneu do Fusca da Funai, e que teria disparado ‘‘em legítima defesa’’. Esta versão diz que houve troca de tiros e o carro apresentaria perfurações de bala. O índio que estava com Reginaldo seria João Teixeira.
Adenilson tinha contra si um mandado de prisão expedido pela Justiça Estadual por estupro, e outro pela Justiça Federal por invasão de terras. Ele também era acusado de ter ateado fogo em três casas da reserva e num reflorestamento do local, em 23 de outubro, logo após ter sido retirado da área.
Para o mecânico, o irmão estava somente querendo um pedaço de terra, e já não devia mais nada à lei. ‘‘Ele teve bronca com a polícia, mas isso foi há dois anos. Ultimamente ele estava quieto. A gente esperava que pudesse haver um conflito, mas não dessa forma. Agora eu temo pelo que pode acontecer’’, comenta, ao falar da repercussão do crime.
SuposiçõesO administrador regional da Funai em Londrina, Joventino Domingos Aco, acredita que o clima ficará mais tenso na reserva. Ele solicitou ajuda em Brasília para garantir a vida dos índios que vivem na área. ‘‘Alguém vai ter que resolver este problema. Não posso assumir isso sozinho, pois a Polícia Federal não tem efetivo para garantir a segurança’’, alerta.
Aco acredita que o cacique Reginaldo tenha fugido da reserva, apesar de ser tutelado. ‘‘Mas posso garantir que ele vai se apresentar nos próximos dias’’, completou. O delegado de São Jerônimo da Serra, Ismael Lucas Machado, ainda não tinha ouvido nenhuma testemunha até ontem à tarde, e por isso disse que não tinha nada de concreto sobre o crime. ‘‘Estamos trabalhando em cima de suposições’’.
A polícia não conseguiu chegar até a reserva por causa da chuva forte e das péssimas condições da estrada. A Folha tentou ouvir os índios ontem à tarde, mas as estradas que levam à reserva estavam intransitáveis.

mockup