Irmã diz que perueiro não tinha arma
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sábado, 29 de janeiro de 2000
Por Marcus Lopes 
São Paulo, 29 (AE) - O corpo do perueiro Anderson de Araújo Rodrigues, o Carioca, morto ontem (28) após tentar escapar de um bloqueio da Polícia Militar, em Guarulhos, na Grande São Paulo, foi velado hoje por parentes e colegas que clamavam por justiça. "Não acredito que as coisas tenham acontecido dessa forma", disse a irmã de Rodrigues, Cínthia. Ela disse duvidar que o irmão tenha atirado contra os policiais ou que tivesse um revólver. "O problema é que agora ele não pode se defender", disse Cínthia. No veículo em que estava Carioca a polícia apreendeu um revólver calibre 38.
Cínthia e a mãe, Anice, chegaram de Bento Ribeiro, subúrbio do Rio, hoje de madrugada. "Espero que isso por que estou passando sirva de exemplo para não ocorrerem mais confrontos", disse Cínthia. Amanhã (30) ou na segunda-feira (31), ela pretende ir até a Corregedoria da Polícia Militar para esclarecer o episódio. "Quero ver como a polícia vai explicar isso." Ela disse que no Instituto Médico-Legal (IML) viu que o irmão tinha sido baleado nas costas.
Apesar de insistir na inocência do irmão, ela admitiu que ele sabia atirar. "Ele fez um curso de tiro na época em que trabalhava como segurança", disse Cínthia. "Como ele iria comprar um revólver, se não tinha dinheiro para comprar remédio para a filha que está doente?", indagou.
Fotógrafo - Casado e pai de uma menina de 2 anos, Anderson Rodrigues morava em Itaquaquecetuba, na região metropolitana de São Paulo. Era fotógrafo, profissão que herdou do pai. Há seis anos, resolveu mudar-se do Rio para São Paulo e, após passar por vários empregos, resolveu tentar a vida como perueiro. Comprou uma Kombi e trabalhava havia cerca de um ano, segundo os amigos.
Ontem (28), ele estava guiando uma perua emprestada, pois a sua tinha sido apreendida pela Guarda Civil de Guarulhos. "Ele tinha muito medo de que acontecesse alguma coisa com a perua emprestada", disse Reginaldo Timóteo Paulino, que trabalhava com Rodrigues como cobrador. "Talvez por isso tenha tentado fugir."
No momento em que o colega foi morto, Paulino estava em casa, pois não tinha ido trabalhar nesse dia. "O sonho dele era comprar um carro maior", disse Paulino, que classificava o perueiro morto como uma pessoa obstinada pelo trabalho. "Cansei de sair com ele às 4 horas e só voltar depois da meia-noite", afirmou. Outras pessoas que foram ao velório afirmaram que, várias vezes, ele dormiu na própria perua para não ter de ir para casa.
Na rua, Rodrigues evitava confrontos com a polícia ou a Prefeitura, segundo os colegas. "Ele só pensava na família", disse o perueiro Robson Souza, que estava no velório.
Por volta do meio-dia, donos de lotações presentes no Cemitério de Bonsucesso, em Guarulhos, chamavam os colegas pelo rádio para comparecer ao enterro do amigo, marcado para 16h30.
A idéia é reunir um grande número de peruas e vans de São Paulo e Guarulhos em frente do cemitério.
"A polícia de Guarulhos está mais preocupada com os perueiros do que em defender a população", reclamou Josenberg de Oliveira Pereira. Perueiro há dois anos, após o episódio de ontem ele pensa em abandonar a profissão.
Medo - "Tenho muito medo, pois tenho família para cuidar e posso ser o próximo a morrer por isso", justificou Pereira. Ele lembrou que, há cerca de dois meses, outros dois perueiros foram mortos em Guarulhos. Pereira disse que desde o início do mês luta para liberar sua perua que está apreendida. Hoje, ele exibia uma ordem do juiz da 8.ª Vara Cível de Guarulhos, Luiz Gustavo da Silva Pires, ordenando a liberação do veículo. "Nem com ordem judicial eu consigo o que é meu", afirmou.


