Irmã de Ayrton Senna resiste a assédio de partidos
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sexta-feira, 21 de maio de 1999
Por Mariana Caetano 
São Paulo, 22 (AE) - Os partidos preparam-se para dar o primeiro passo rumo à sucessão do presidente Fernando Henrique Cardoso já na próxima eleição para a Prefeitura de São Paulo. Por enquanto, a petista Marta Suplicy e a deputada e ex-prefeita Luiza Erundina (PSB) são as únicas candidatas definidas. Uma terceira mulher, de 41 anos vividos longe da política, tornou-se objeto de desejo de liberais e sociais-democratas. Em busca de uma opção competitiva, parte do PSDB e do PFL sonha fazer prefeita a psicóloga Viviane Senna. "Ela é muito competente", elogia o presidente do Congresso, Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA). O próprio Fernando Henrique já disse a interlocutores que ela seria um ótimo nome para o PSDB. Nem um, nem outro. A presidente do milionário Instituto Ayrton Senna, que atende cerca de 180 mil crianças e adolescentes carentes em todo País, recusa qualquer proposta do tipo antes mesmo de ser formalmente convidada.
"Ninguém precisa, muito menos eu, ser governo para ajudar o Brasil", diz Viviane. "Agradeço a lembrança do meu nome, mas até não me vejo com qualificação para ser prefeita." Sua ambição é maior do que essa. "Precisamos da disposição e da competência de cada um, em sua área de atuação, seja empresário, dona de casa, para tentar vencer os desafios do País."
O desafio é triplo: de natureza econômica, social e política. O primeiro, segundo ela, é a necessidade de garantir a inserção do Brasil no mercado global, ou seja, torná-lo "viável" economicamente. Ao mesmo tempo, é preciso combater a desigualdade social, erradicando as diferenças brutais na distribuição de renda, além de estender para o conjunto da população os direitos humanos e consolidar um Estado democrático.
Viviane assume a tarefa e quer dar exemplo. "Para vencer esse desafio não basta o governo", defende. "Ele atinge a todos nós; precisamos de uma nova ética, de co-responsabilidade social." Ela insiste: "Temos 500 anos de moratória social e uma identificação equivocada entre público e governamental; nessa medida, delegamos exclusivamente ao governo uma responsabilidade que também é nossa."
Crítica - A psicóloga integra o Programa Comunidade Solidária, mas nem por isso poupa o governo. Considera dispersas as ações de combate à desigualdade social. "Existe uma visão clara sobre a necessidade de tornar o País viável economicamente
por exemplo, por meio das reformas constitucionais; para isso, existe uma agenda", diz. "Já no que diz respeito aos desafios da equidade social e da consolidação democrática, não há clareza; não temos uma agenda da equidade no País." Para ela, o Estado trata desses problemas de maneira isolada. "Há o problema da seca no Nordeste, a saúde desmontada, a educação com problemas, crianças abandonadas de um lado, idosos de outro; só que tudo isso está interligado e não nos colocamos de maneira articulada diante dos problemas."
Para atender ao desejo do irmão, Viviane e o instituto que preside concentram esforços na educação das "futuras gerações". Sua meta é prepará-las para que possam não só viver numa sociedade mais justa, mas ajudar a construí-la. Com 100% do que é arrecadado com a imagem do piloto desde 1994 - seja com o personagem Senninha ou produtos como relógios, motocicletas e até um modelo de lancha -, o instituto mantém programas de nutrição, qualidade no atendimento de saúde, qualidade em educação e educação pelo esporte, pela arte e cultura e pelo trabalho. Só em 1998, o instituto investiu cerca de R$ 9 milhões. Os aliados e executores dos projetos do Instituto Ayrton Senna são universidades, organizações não-governamentais, empresários e também o governo.
No fim do ano passado, o Programa Acelera Brasil (a menina-dos-olhos de Viviane) esteve ameaçado, porque a Petrobrás e o Ministério da Educação (MEC) não puderam aplicar o dinheiro esperado. "Uma semana antes do Natal, tudo ficou complicado, porque a Petrobrás vivia a transição de sua diretoria e o MEC sofreu com os cortes no Orçamento", conta a psicóloga. "Conseguimos socorro do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), que rapidamente liberou R$ 6,5 milhões para os próximos dois anos do programa." O Acelera Brasil oferece acompanhamento para professores e alunos e permite recuperar, em um ano, até quatro anos de estudo de crianças e jovens repetentes.
Campanha - Marta Suplicy e Luiza Erundina já estão em campanha. A petista prepara um programa de televisão. Por sua vez, a ex-petista promove encontros para reunir o maior número de forças políticas possível em torno de seu nome. Não dispensa, por exemplo, uma aliança com o PMDB. Alheio a tudo isso, o exemplo de Viviane parece estar dando certo.
"Nos últimos três anos, o número de empresários e pessoas que passaram a oferecer recursos para o instituto, além de qualquer outro tipo de ajuda, cresceu muito", comemora. Em meio ao enorme assédio de gente que quer colaborar ou pedir auxílio, ela tenta preservar-se do uso político de seu trabalho e do instituto. "Podemos até escorregar, mas nosso intuito é pôr a imagem do Ayrton a serviço do País, de uma causa ética, não em benefício de um ou outro político, ou de quem quer que seja." E completa: "Sua imagem e a lição que ele nos deixou são nosso maior patrimônio, e tudo o que ele fez pelo Brasil foi como esportista; é o exemplo de que podemos ajudar a partir do que somos e das nossas capacidades."


