Brasília, 14 (AE) - A presidente do Instituto Ayrton Senna, Viviane Senna, criticou hoje o governo federal pela falta de uma política pública de "envergadura" para os jovens. "Eu daria uma nota muito baixa ao governo nessa área", afirmou Viviane, constrangida em revelar qual seria a nota numa escala de 0 a 10. Apesar de o governo viver divulgando que investe no "social", Viviane avalia que são oferecidos à população saúde e educação da pior qualidade e nenhuma perspectiva de futuro. Segundo ela, o Brasil tem péssimas escolas públicas e, apesar de ser a oitava economia mundial, registra indicadores sociais vergonhosos.
A crítica foi feita durante lançamento do programa "Largada 2.000-Aliança Jovem para o Terceiro Milênio", que o Instituto Ayrton Senna patrocinará em parceria com o Serviço Social da Indústria (Sesi) e a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Viviane previu que, se hoje os índices de violência são elevados, no futuro serão ainda maiores por não ser dada aos jovens oportunidade de uma formação básica e profissional. "Temos uma bomba relógio: uma massiva quantidade de jovens sem formação básica e profissional chegando a um mercado em retração que não é passageira, mas estrutural." Ela criticou também os defensores da redução da maioridade penal de 18 anos para 16 anos como forma de coibir a crescente participação de jovens no crime. "Querem apagar incêndio jogando gasolina", reclamou.
Ela garante que adolescentes envolvidos com tráfico de drogas trocam os R$ 500,00 semanais, que recebem na atividade ilícita, por um programa de esportes porque sabem que no mundo do crime vão viver no máximo até os 20 anos de idade. A maioria, diz, morre entre 17 e 18 anos. Viviane também não poupa a sociedade da responsabilidade de ajudar a contruir um Brasil melhor. "O nosso papel não é substituir o governo, é um equívoco achar que o Terceiro Setor deva assumir as políticas públicas", reparou, indicando que o caminho é o de somar com o governo promovendo ações, como o programa "Largada 2.000", lançado hoje.
Garra - O objetivo desse programa é desenvolver projetos para melhorar a qualidade do ensino e lazer. Inicialmente, serão atingidos 50 mil alunos entre 15 e 19 anos que frequentam cursos do ensino médio e fundamental das escolas do Sesi nos Estados de Santa Catarina, Minas Gerais, Bahia, Rondônia, Mato Grosso do Sul e Ceará.
O programa terá três bases: educação para valores, protagonismo juvenil e trabalhabilidade. "Temos de educar os jovens para mudar a cultura do jeitinho e da trapaça instituída pela Lei de Gerson, em que quem age corretamente é um bobo", explica. Segundo Viviane, os jovens precisam saber que vencerão na vida com garra, competência e determinação, como fez seu irmão, o piloto de fórmula 1 Ayrton Senna.
Ela contou que enquanto todos os pilotos iam embora depois dos treinos, Senna ficava discutindo com os mecânicos os problemas ocorridos com o carro. O programa Largada 2.000 ainda terá a preocupação de desenvolver no aluno habilidades básicas e específicas e flexibilidade em aprender tarefas e também autonomia para ao invés de ser um empregado ser um empreendedor. "Enfim, competências necessárias para ele entrar no mercado e permanecer", diz a presidente do Instituto Senna.
Com o protagonismo juvenil, Viviane explica que se quer transformar o jovem no ator principal de sua vida. "Ele deixa de ser um mero receptáculo e passa a definir o projeto de vida pessoal." Ela cita o exemplo do estudante Eloi Marcelo Oliveira Silva, de Lagoa Santa (MG), hoje com 18 anos, que há três anos, vendo o alto índice de repetência e evasão escolar na sua cidade
decidiu bater em cada casa para saber se havia criança fora da escola. O rapaz, que esteve presente hoje no lançamento do programa na CNI, não desistiu mesmo diante das repostas negativas dadas pelo prefeito, políticos locais e até de pessoas que o mandavam viver a sua própria vida, que aquilo não era problema seu. Em três anos de trabalho, ele e um amigo conseguiram zerar a evasão escolar na cidade e ainda iniciaram outro projeto, o de salas de reforço, para ajudar as crianças a permanecerem na escola. Eloi contou hoje que durante todo esse tempo tinha uma frase em mente: "ele não sabia o que era impossível, foi lá e fez".

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