Irlanda só fixa plano para o Executivo
Belfast, Irlanda do Norte, 02 (AE-AP) - Os cinco dias de intensas negociações entre católicos e protestantes da Irlanda do Norte (Ulster), mediadas pelos governos britânico e irlandês, foram encerrados hoje (02) sem que ambas as partes tenham chegado a um claro acordo para a formação do Executivo local, para o qual o primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Tony Blair, havia fixado a última quarta-feira como data-limite.
A solução encontrada para pôr fim ao impasse, fundamentado essencialmente na questão da entrega das armas por parte dos grupos paramilitares, foi a elaboração de um plano para formar o governo no Ulster ainda este mês e iniciar dias depois a deposição de armas. "Todas as partes concordaram em consultar seus partidários", disse Blair, admitindo, contudo, que não se chegou a um acordo, mas a um plano que contém as bases para isso.
A nova meta anunciada por Blair e o primeiro-ministro da República da Irlanda, Bertie Ahern, é o dia 15. Se católicos e protestantem chegaram a um acordo para formar o Executivo, no dia 16 o Parlamento britânico votará o projeto de devolução de poderes à Província da Irlanda do Norte e a autonomia será restabelecida no dia 18.
Os líderes católicos e protestantes concordaram com o plano proposto por Blair e Ahern depois que o general canadense John de Chastelain, chefe da comissão de desarmamento na província, apresentou um relatório no qual expressou a opinião de que o IRA endossaria a garantia dada pelo Sinn Fein, na quinta-feira, de que o grupo poderia completar a deposição de armas em maio de 2000.
Segundo informações não confirmadas, o desarme do grupo guerrilheiro Exército de Libertação Irlandês (IRA) começaria um mês após a formação do governo autônomo. Se não for cumprido, o braço político do IRA, o Sinn Fein, ao qual caberão duas cadeiras no gabinete do Ulster, será excluído do governo. A comissão de desarmamento realizará contatos urgentes com os grupos armados para estabelecer o cronograma de entrega das armas.
A criação de uma coalizão de governo integrada por protestantes e católicos vinha sendo dificultada pela exigência do Partido Unionista do Ulster (UUP) de que o IRA iniciasse primeiro a deposição de armas. O Sinn Fein alegava que o acordo da Sexta-Feira Santa não estabelece uma data para o começo do desarme, mas apenas prevê o mês de maio como o prazo final para que isso ocorra.
No decorrer das negociações, iniciadas na sexta-feira da semana passada, o líder do UUP, David Trimble, concordou em aceitar a inclusão do Sinn Fein no governo, desde que o IRA desse garantias de que completará o desarme até maio de 2000. Na quinta-feira, o Sinn Fein admitiu que o desarmamento do IRA é uma obrigação para a obtenção da paz e prometeu trabalhar para esse objetivo. "O comunicado do Sinn Fein contém as bases para que possamos pensar que o desarme dos vários grupos rebeldes possa realizar-se nos tempos previstos no acordo de paz", disse Chastelain.
A demora na formação do Executivo é um ingrediente a mais na tensa temporada de verão norte-irlandesa. Este mês os protestantes realizam uma série de marchas em várias regiões da província para lembrar vitórias sobre católicos, em séculos passados, o que costuma provocar incidentes violentos todos os anos. A polícia do Ulster teme a irrupção de conflitos violentos no domingo em Drumcree, localidade perto de Portadown, onde integrantes da organização protestante Ordem de Orange pretendem realizar uma marcha proibida pelas autoridades.
O governo britânico reforçou o contingente militar na província para evitar distúrbios e, hoje, 300 homens foram enviados para a região de Drumcree.





