Teerã, 11 (AE-REUTERS) - As ruas carregam nomes de mártires. Gigantescos murais de líderes religiosos assassinados e heróis caídos enfeitam os muros. Vermelho sangue é a cor dominante no 20º aniversário da Revolução Islâmica do Irã.
Mas as ruas de Teerã também estão decoradas com coloridas luzes de festa, e milhões de iranianos tinham algo para comemorar nesta quinta-feira, apesar de uma crise econômica significar que muitos estão reclamando mais abertamente do que em qualquer tempo desde o levante de 1979 que derrubou a ditadura do xá.
Vinte anos depois, apesar de persistentes pontos negros nos direitos humanos, o Irã desfruta um nível sem precedente de democracia em sua história e inimaginável na maioria dos países do Oriente Médio.
É primavera política e cultural no Irã, em contraste com a imagem negativa que a república islâmica ainda tem na maior parte do Ocidente.
"Nós enfrentamos tempos difíceis, problemas e pressões, mas hoje somos independentes, e não dependentes, de qualquer superpotência. Esses são momentos de orgulho", afirmou Masoumeh Ebtekar, vice- presidente de assuntos ambientais, numa entrevista à REUTERS.
A liberdade de expressão está aumentando, apesar de críticas ao líder espiritual da revolução, o falecido aiatolá Ruhollah Khomeini, continuar sendo um tabu uma década depois de sua morte.
Novos jornais e agrupamentos políticos estão brotando quase semanalmente, sendo mais rapidamente autorizados pelo governo reformista do presidente Mohammad Khatami do que juízes islâmicos linhas duras possam fechá-los. O iranianos irão eleger cerca de 200 mil conselheiros locais (vereadores) este mês, também pela primeira vez.
Restrições artísticas e culturais estão sendo relaxadas dentro dos limites da modéstia islâmica. O cinema no Irã está florescendo. O estrito código de vestimenta islâmico para as mulheres está sendo observado menos opressivamente, pelo menos em Teerã. O som de música popular, embora com restrições a temas religiosos, está começando a ser oficialmente tolerado em público.
Dois milhões de estudantes enchem as universidades e o índice de analfabetismo caiu drasticamente.
Apesar de Teerã ser ainda mais poluída, uma expandida metrópole de concreto do que era sob o xá, seu crescimento incansável tem sido menos anárquico graças à limpeza das ruas, novas habitações, parques e rodovias que tem feito a vida melhor para muitos.
Se o preço do petróleo, o principal produto de exportação do país, não tivesse despencado em mais de 40% nos últimos 18 meses, para apenas US$ 9.38 o barril de cru leve iraniano, o aniversário poderia ter sido mais triunfante. A revolução fez com que o preço do barril chegasse a US$ 40 em 1979-80.
Mas a maioria dos iranianos está sentindo o golpe, e alguns temem que dificuldades econômicas podem causar distúrbios populares.
"Muitos de nós estão preocupados que no verão, vamos enfrentar violentas explosões sociais nas cidades por causa da deterioração da situação econômica", disse Ebrahim Yazdi, um ex-ministro do Exterior que agora lidera um pequeno partido liberal de oposição.
Muitos iranianos comuns têm expressado indiferença e poucos, hostilidade aberta ao aniversário, martelado internamente com imagens de televisão da volta de Khomeini do exílio na França e confrontos de rua que derrubaram o regime do xá.
"Eu apoiei a revolução e o imã Khomeini, mas a economia está mal", afirmou Abbas, um professor que dirige um táxi à noite para complementar a renda familiar.
Perguntado quem deveria ser responsabilizado, ele disse simplesmente "os mulás" - os clérigos xiitas que têm dominado o governo por duas décadas. Mas como a maioria dos iranianos, ele rapidamente separou Khatami, um clérigo moderado cujo índice de aprovação continua inalterado 18 meses depois de sua retumbante vitória sobre o candidato do clero do establishment conservador.
Historiadores colocam a revolução iraniana ao lado da francesa de 1789 e da russa de 1917 como um dos grandes levantes da história, com muitos aspectos semelhantes. Em cada caso, um monarca foi derrubado por uma revolta popular liderada por núcleo organizado radical - os deputados do Terceiro Estado da França, o Partido Comunista Soviético e o clero xiita no Irã.
Cada um suportou uma fase de terror na qual partidários do regime derrubado foram mortos e políticos moderados foram presos e encarcerados ou executados depois de julgamentos sumários.
E cada um sobreviveu a uma guerra alimentada por inimigos externos buscando destruir a revolução. O Irã ainda sofre as consequências humana e econômica da guerra de 1980-88 lançada pelo Iraque com o apoio financeiro e prático de Estados do Golfo árabe e do Ocidente.
Apesar de persistentes casos de tortura e prisões políticas, documentados por organizações de direitos humanos, a revolução iraniana pode estar rumando para um pouso relativamente tranquilo.
Vinte anos depois, o Irã perdeu muitos de suas altas figuras revolucionárias em atentados a bomba e assassinatos. Seu primeiro presidente foi chutado de volta ao exílio depois de 17 meses de sua eleição, e milhares de jovens ativistas que se chocaram com o clero linha dura foram executados.
Mas hoje, o Irã está em paz com seus vizinhos, colhendo uma recém- encontrada respeitabilidade apesar da persistente hostilidade por parte dos Estados Unidos, e caminhando lentamente para um maior pluralismo político e a muito postergada reforma econômica. Sua população quase que dobrou - de 35 milhões em 1979 para 60 milhões hoje -, mas o índice de natalidade está agora novamente sob controle.
Enquanto a república islâmica entra em sua terceira década, o desafio que seus governantes enfrentam é atender as crescentes aspirações de uma enorme e impaciente nova geração, e das mulheres, por maior liberdade, empregos e um pouco mais de diversão enquanto preservando o essencial do sistema islâmico.

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