Irã refaz laços com o mundo, menos com os EUA
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quinta-feira, 04 de fevereiro de 1999
Por Paul Taylor, da REUTERS (assinatura obrigatória) 
Londres (AE-REUTERS) - Duas décadas após a revolução islâmica ter abalado o Oriente Médio, as relações do Irã com o resto do mundo estão melhores do que em qualquer época desde que o xá Mohammad Reza Pahlavi foi destronado.
Mas os laços com os Estados Unidos permanecem indefiníveis, manipulados por demonologias políticas em ambos os países, apesar das cuidadosas tentativas feitas pelos dois lados. As relações exteriores de Teerã se transformaram nos 18 meses desde que o presidente Mohammad Khatami assumiu, apesar dele não ter controle total da política. O conservador Líder Supremo aiatolá Ali Khamenei tem a maior autoridade.
O Irã melhorou seus laços com os vizinhos do Golfo árabe, exerceu um papel construtivo nas antigas repúblicas soviéticas da ásia Central, restaurou relações completas com os países da União Européia e está prestes a trocar embaixadores com a Grã-Bretanha. Também começou a quebrar a estrangulação das sanções econômicas dos Estados Unidos em seu setor vital de petróleo e gás, se juntando a companhias européias, russas e asiáticas no desenvolvimento de plataformas marítimas. "Isto é 100% atitude de Khatami. Ele transformou as relações exteriores do Irã. É um grande sucesso", disse Gary Sick, diretor-executivo do projeto de pesquisa Golfo/2000 e ex-integrante do Conselho de Segurança Nacional dos EUA.
O presidente, um clérigo xiita reformista que é responsável pelas regras da lei e da sociedade civil, deu ao Irã uma face sorridente depois de duas décadas nas quais a expressão severa do último aiatolá, Ruhollah Khomeini, era a imagem do país no mundo. As Nações Unidas receberam o chamado de Khatami para um diálogo entre culturas e religiões diferentes, oficialmente chamando 2001 de O Ano do Diálogo entre as civilizações. O presidente deve visitar a Arábia Saudita e a França em breve para discutir os detalhes tangíveis de um novo capítulo nas relações. Analistas dizem que o florescimento das relações externas do Irã se deve ao abandono da agressiva exportação da revolução islâmica e a um ambiente de segurança mudado no Golfo com um Iraque enfraquecido e um crescente interesse mundial pelas reservas energéticas da região.
"A reconciliação internacional também reflete atitudes mudadas nos Estados Unidos e na Europa. Enquanto Saddam Hussein ainda está no poder no Iraque, o Taleban domina o Afeganistão e há instabilidade na Transcaucasia, o ocidente tem muitos interesses em comum com o Irã", disse Ali Ansari, um especialista em política externa iraniana na Universidade Durham.
A abertura para a Arábia Saudita é a mudança mais espetacular depois dos amargos conflitos do passado sobre a produção de petróleo, o apoio de Riad a Bagdá na guerra entre Irã e Iraque em 1980-88, o comportamento e tratamento dos peregrinos iranianos no anual haj muçulmano e a presença militar norte-americana em solo saudita. O príncipe coroado Abdullah, que efetivamente comanda o país devido à saúde debilitada do rei Fahd, recebeu uma calorosa recepção quando compareceu a um encontro da Conferência da Organização Islâmica em Teerã em dezembro de 1997 e pessoalmente dirigiu a reaproximação. Diplomatas dizem que o príncipe Abdullah vê os laços mais próximos com o Irã como uma forma de reduzir a tensão no Golfo, neutralizando uma fonte potencial de subversão e permitindo que os Estados Unidos diminuam sua presença militar politicamente sensível na área.
A visita de Khatami a Riad em março deve selar laços mais próximos, apesar dos dois países estarem discutindo a quantidade de petróleo que o Irã poderá exportar sob as determinações da OPEC. Ainda assim alguns Estados do Golfo árabe, notadamente os Emirados árabes Unidos, permanecem receosos quanto Teerã, devido à sua contínua presença militar em três disputadas ilhas do Golfo e porque eles vêem um poderoso Irã como uma constante ameaça. As relações com o Iraque descongelaram um pouco, com trocas de prisioneiros de guerra e peregrinos, mas cada país patrocina os rebeldes do outro e especialistas dizem a hostilidade mútua irá durar enquanto Saddam, que invadiu o Irã em 1980, continuar no poder.
O Irã manteve relações próximas com a Síria, que compartilha de sua hostilidade para com Israel, de sua preocupação com a crescente aliança militar entre o Estado Judeu e a Turquia e de seu apoio aos guerrilheiros xiitas do Hizbollah que lutam contra a ocupação israelense de uma faixa do Líbano. Khatami também tem intenção de restaurar relações com o Egito, mas o progresso tem sido lento. A rua fora da embaixada egípcia em Teerã ainda é chamada de Khaled Istambouli, o militante islâmico que assassinou o presidente Anwar Sadat em 1981.
Khatami levantou os portões com a União Européia depois de uma crise diplomática em 1997 quando uma corte alemã determinou que líderes iranianos haviam ordenado o assassinato de quatro dissidentes curdos em um restaurante em Berlim. O Irã negou a responsabilidade. O primeiro-ministro italiano, Romano Prodi, no ano passado se tornou o primeiro líder de um importante país ocidental a visitar Teerã desde a revolução, e a viagem de Khatami a Paris, provavelmente em abril, será a primeira de um presidente iraniano a um país da Europa ocidental. O Irã e a Grã-Bretanha concordaram em normalizar suas relações no último setembro em Nova York, quando o governo de Teerã publicamente se dissociou da sentença de morte que Khomeini decretou em 1989 contra o autor britânico Salman Rushdie por este ter blasfemado contra o islamismo em seu livro "Os Versos Satânicos". Apesar dos linha-dura terem anunciado imediatamente que a "fatwa" (ordem religiosa) permanecia valendo e que uma fundação iraniana havia aumentado o prêmio pela cabeça de Rushdie, a Grã- Bretanha insiste que o Irã manteve sua palavra.
Diplomatas dizem que espera-se que os dois países troquem embaixadores em março, depois da passagem do aniversário de 20 anos da revolução iraniana e do 10º aniversário da "fatwa". "Nós estamos quietamente colocando os tijolos de volta no muro das relações, mas a última coisa que Khatami precisa é de um abraço entusiástico do primo do Grande Satã", disse um oficial britânico.
Os Estados Unidos continuam sendo a grande exceção à abertura do Irã ao mundo exterior, apesar do chamado de Khatami em janeiro de 1998 por uma "quebra no muro da desconfiança". Eles trocaram acadêmicos e lutadores, mas contatos diplomáticos oficiais continuam sendo um tabu em Teerã, e Washington ainda está usando sanções e pressões para excluir o Irã, que é uma rota de trânsito natural, do transporte de petróleo e de gás cáspios. Khamenei e os linha-dura continuam a falar contra Washington e insistem que o Irã não precisa de relações com o país que Khomeini chamou de "o Grande Satã", e ao qual seus seguidores se referem como "a arrogância global". O espaço para manobras de Khatami é muito limitado, especialmente desde que os linha-dura no congresso se opuseram a qualquer relaxamento das sanções dos Estados Unidos contra o Irã, que é chamado pelos americanos de "Estado destrutivo" - um patrocinador do terrorismo no Oriente Médio empenhado em desenvolver armas nucleares. "Ambos os países estão presos em sua própria demonologia", disse um diplomata da Europa ocidental.


