São Paulo, 10 (AE) - Uma parceria entre o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e a Cooperativa dos Produtores de Cana de Açúcar e álccol do Estado de São Paulo (Copersucar) começa a sair do laboratório. Após 4 anos de pesquisas e desenvolvimento, US$ 3 milhões de investimento e o trabalho de 20 pesquisadores do IPT e outros 10 da Copersucar, o Brasil é o primeiro país do mundo que já pode contar com uma indústria de plásticos biodegradáveis. Ao contrário do plástico derivado de petróleo, que leva mais de cem anos para se deteriorar, o de sacarose em contato com o aterro se desmancha em seis meses a um ano. O custo da preservação ambiental, porém, ainda é muito alto.
A tecnologia utilizada pelo IPT não é nova. Em 1979, a inglesa ICI Imperial Chemical Industrial desenvolveu a técnica de transformar açúcar de beterraba em plástico. A idéia não foi levada adiante, por causa do custo: um quilo por US$ 15,00 ou uma tonelada por US$ 15 mil - enquanto o plástico de petróleo custa de US$ 1,2 mil a US$ 2 mil a tonealda. Como o Brasil conta com bons clima, solo e extensão territorial para o cultivo da cana-de-açúcar, o IPT utilizou o conhecimento inglês.Mas foi buscar no próprio solo do canavial uma bactéria que, alimentada pela sacarose extraída da cana, produz o insumo para o plástico - como o corpo humano produz lipídios a partir dos alimentos que ingere.
Produção - A separação da bactéria e do poliéster por ela produzido dentro do reator é feita com solvente. A mudança de temperatura dentro do reator é a responsável pela separação entre o plástico e o solvente - que é descartado. Com três quilos de açúcar se produz um quilo de plástico. Como a produção inicial prevista não será em grande escala, o custo da tonelada será três a quatro vezes maior que a do plástico petroquímico.
A Copersucar, que já possui uma unidade piloto com capacidade instalada para a produção de 5 mil a 10 mil toneladas ao ano, em Ribeirão Preto, pretende investir na instalação de uma fábirca de maior escala. O projeto, com custos estimados em US$ 20 milhões a US$ 30 milhões poderá sair do papel ainda este ano, para a produção inicial anual de 20 mil toneladas.
"No Brasil, temos cana-de-açúcar e a queima do bagaço gera energia térmica. Num raio de 80 quilômetros, pode-se ter a plantação, a usina de açúcar e álcool e ainda a unidade bioquímica para a produção do plástico", diz o coordenador do Projeto para a Produção de Plásticos Biodegradáveis, do IPT, José Geraldo da Cruz Pradella, explicando por que no Brasil o custo de produção - embora ainda alto - é muito inferior ao inglês, que dependeria de vastas extensões, clima e solo favoráveis para o plantio da beterraba.
A queda do preço desse tipo de plástico só será possível a partir da produção em escala. Uma unidade petroquímica média no Brasil produz cerca de 200 mil t/ano de resinas termoplásticas, ou seja, 20 vezes mais do que a de biodegradáveis. A vantagem do plástico de sacarose também é que ele não depende da importação da nafta e de sua oscilação de preços já que é commodity, das reservas mundiais de petróleo e da integração vertical exigida em um pólo petroquímico. Para a produção do plástico biodegradável basta, como já foi descrito, um canavial, a usina e a indústria de resinas - tudo em um só lugar, independente de refinarias de petróleo e central petroquímica, que transforma nafta em eteno, propeno e outros insumos petroquímicos -, para depois ser usado pela fábrica de termoplásticos propriamente dita.
Provando que não há choque de interesses entre os plásticos biodegradáveis e os de petróleo, José Pradella afirma que algumas indústrias petroquímicas nacionais se interessaram pelo projeto do IPT e a Copersucar. Os dois sócios também convidaram a Dow Agroscience e a Cargill, para que apresentassem seu projeto para a produção de plástico a partir do amido de milho (nos Estados Unidos), mas as empresas americanas não aceitaram.
Até agora, nenhuma parceria à vista, embora o projeto já tenha sido oferecido inclusive para Cuba e para a Austrália - os dois únicos países que, além do Brasil, podem cultivar cana em grande escala, devido ao tipo de solo e às condições climáticas. "Há dois grupos estrangeiros interessados em nossa tecnologia"
afirma Pradella. A tecnologia está sendo patenteada no Brasil pelos sócios, mas seu licenciamento poderá ser feito no todo ou em parte. O IPT poderá vender, por exemplo, somente a bactéria que modificou por métodos naturais, para que produza mais plásticos.
O plástico de sacarose poderá ser utilizado em quase todas as aplicações feitas com o tradicional. Nas embalagens flexíveis ainda são pesquisadas fórmulas para aumentar a elasticidade e resistência do material. Para a medicina, o IPT está desenvolvendo um grau plástico para a produção de cânulas na espessura de veias e artérias. Implantadas no paciente, elas possibilitam o cultivo de células humanas que regeneram o vaso danificado ou perdido.
Uma vez completada a veia ou artéria de tecido humano, a outra, de plástico biodegradável, é absorvida pelo organismo do paciente. "Estamos em conversações com o Incor (Instituto do Coração do Hospital das Clínicas, em São Paulo) e com uma pequena empresa americana, a Metabolix, ligada ao Massachussetts Institute of Technology (MIT)", adianta José Pradella.

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