São Paulo, 22 (AE) - O diretor de Reatores do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), da Universidade de São Paulo (USP), José Rubens Maiorino, garantiu hoje que a operação para o envio de lixo atômico para os Estados Unidos não apresenta riscos à população. Cerca de 15,1 quilos de urânio 235 serão transportados na primeira semana de novembro a partir da Cidade Univeristária para o porto de Santos, onde serão embarcados com destino a um depósito especial na Carolina do Sul (EUA), mantido pelo Departamento de Energia norte-americano. É a primeira operação desta natureza a ser feita pelo Brasil.
O urânio 235 é resíduo do combustível utilizado pelo reator do Ipen, que produz, principalmente, diversos radiofármacos, substância utilizado na medicina nuclear, no tratamento de alguns tipos de câncer e exames diagnósticos. Segundo Maiorino, se os resíduos não fossem retirados do depósito do Ipen, o reator teria que ser paralisado por falta de espaço de armazenagem. O instituto fornece radiofármacos para 95% de hospitais e clínicas públicos e particulares do País. O restante é responsabilidade do Instituto de Engenharia Nuclear do Rio de Janeiro.
Maiorino explicou que o material, armazenado em embalagens de alumínio, será transportado em quatro cascos especiais que passaram por rigorosos testes nos Estados Unidos e são resistentes a choques violentos, explosões, afundamento e incêndio. As cápsulas também foram aprovadas pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN). Cada casco será transportado em um contêiner. Ao todo, quatro carretas farão a viagem até o Porto de Santos. Operação - O secretário de Meio Ambiente do Estado de São Paulo, Ricardo Trípoli, reuniu-se hoje com Maiorino para discutir a operação. Segundo o secretário, a tarefa é competência do governo federal, por se tratar de material nuclear, mas o governo do Estado solicitou ao Ipen a garantia de que os contêineres sejam embarcados assim que chegarem ao porto e que a Marinha acompanhe o navio até 200 milhas da costa brasileira.
A secretaria também quer que o Ipen formule um plano de proteção física, radiológica, e de transporte e obtenha licenças do Ibama, do CNEN e do Ministério das Relações Exteriores. A operação deve envolver 15 órgãos, como a Polícia Federal, a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), a Ecovias, o Corpo de Bombeiros e a Marinha. Acordo - A transferência do urânio é resultado de um acordo internacional fechado em 1996 no qual os Estados Unidos, que há décadas forneceu o combustível para vários países, responsabilizou-se pelo lixo gerado após a sua utilização. Os norte-americanos se comprometeram a financiar o transporte do material dos países com impossibilidade de financiar a operação, entre eles o Brasil. No ano passado, o Paraguai, a Venezuela e o Chile mandaram lixo radioativo para os EUA.
O Brasil recebeu urânio dos Estados Unidos de 1957 a 1985, quando passou a ser auto-suficiente na sua produção. Todo resíduo formado a partir desta data é responsabilidade do Ipen, que tem estoque para os próximos 15 anos, na avaliação de Maiorino. Segundo ele, o Brasil ainda não sabe o que fazer com este lixo radioativo quando a capacidade de armanezamento estiver esgotada.

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