Uma ‘‘grande farmácia’’, com remédios para tudo, à qual os verdadeiros doentes têm pouco acesso. Assim o diretor de Estudos Sociais do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Ricardo Paes de Barros, define a política social brasileira. Trata-se, segundo ele, de um problema de ‘‘foco’’ e não de falta de verbas ou de programas. ‘‘Temos dinheiro para erradicar ou diminuir dramaticamente a pobreza. Mas gasta-se muito com a classe média e pouco com os verdadeiros pobres’’, analisa.
Segundo Barros, o gasto anual com projetos sociais fica entre R$ 130 bilhões e R$ 150 bilhões por ano, 15% do PIB nacional, quantia que ele considera mais do que o suficiente para resolver boa parte dos problemas da população pobre do País. Barros acredita que R$ 5 bilhões por ano, ou 5% do PIB, seria o bastante para retirar 20 milhões de pessoas da situação de miséria absoluta.
‘‘Eticamente, economicamente e politicamente, é inadmissível que existam pessoas passando fome’’, afirma ele, que ontem participou do seminário Eficiência em Gestão de Programas Sociais, promovido pelo instituto.
Mas nem tudo é tão simples. Barros alerta para o fato de que junto com o investimento anual de R$ 5 bilhões seria necessário desenvolver um ‘‘super sistema de focalização’’. Trocando em miúdos: não basta identificar quem são os pobres, mas determinar o quanto cada um deles é pobre.
É exatamente na avaliação do impacto das políticas sociais que reside a grande lacuna brasileira, aponta Barros. ‘‘Fomos à Costa Rica e Colômbia para estudar o sistema deles. Temos vários trabalhos mostrando isso. Acho até que nesse governo se fala mais sobre o assunto’’, diz, revelando que o ministro da Fazenda, Pedro Malan ‘‘faz essa cobrança o tempo todo’’.

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