Investimentos versus desemprego
PUBLICAÇÃO
domingo, 11 de outubro de 1998
Almir Pazzianotto Pinto 
Confirmam-se as mais pessimistas previsões a respeito do inexorável avanço do desemprego. Basta acompanhar a propaganda eleitoral para perceber, porém, que não existem propostas concretas de combate ao fenômeno que expulsa do mercado de trabalho milhões de pessoas de todas as idades e qualificações profissionais.
Segundo o Banco Mundial, o pior desemprego é aquele decorrente da estagnação e do malogro de políticas econômicas. Nesses casos, registra o banco, sua duração tende a ser prolongada e a redução a níveis toleráveis requer, entre outras medidas, como recuperação da demanda global, a eliminação de práticas rígidas em relação a salários e empregos e o melhoramento das habilidades dos trabalhadores.
O problema do desaparecimento de vagas já se transformou no mais complexo e aterrorizador desafio nacional das próximas décadas. Além das dificuldades apontadas no relatório anual do banco, três outras devem ser consideradas: a) o rápido crescimento da população, estimando-se que alcance 230 milhões dentro de apenas 25 anos; b) a predominância de ingresso de investimentos especulativos e voláteis, como ficou demonstrado nas últimas semanas; e c) a reduzida capacidade geradora de empregos das grandes empresas e o desestímulo à contratação de empregados por pequenas e médias.
A esse propósito, destaco o ocorrido com a fábrica de automóveis Ford, em construção no município de Guaíba-RS. Segundo noticia a imprensa, com investimentos da ordem de um bilhão de dólares, devendo começar a operar no fim de 2001 ou no início de 2002, a empresa e as demais indústrias integrantes do complexo industrial deverão gerar 3,5 mil empregos ao custo médio, por emprego, de quase 285 mil dólares. Da mesma maneira, a nova fábrica Toyota, inaugurada no município de Indaiatuba-SP, para a produção diária de 500 carros compactos, começará a operar com 220 empregados, número que eventualmente será elevado para 350.
É óbvio que ao País interessam muito as modernas indústrias automobilísticas. Do ponto de vista social, todavia, a relação investimentos versus empregos deixa bastante a desejar, mesmo levando-se em conta os indiretos. Longe ficamos da época em que uma única planta absorvia dezenas de milhares de operários. Em 1975, por exemplo, as montadoras de veículos e tratores significavam aplicações de 900 milhões de dólares, abrigando quase 120 mil trabalhadores. Em 1996, com investimentos de 2,5 bilhões de dólares e o dobro da produção que tinha há 20 anos, o nível de emprego nesses setores se reduziu a 112 mil trabalhadores, conforme revelam autorizadas estatísticas.
Precisamos continuar atraindo empresas de elevada tecnologia e capital intensivo. Não podemos nos descuidar, todavia, dos incentivos às atividades que se utilizam de mão-deobra intensiva, geradoras de grande quantidade de postos de trabalho, tratando de eliminar a insegurança que vem se tornando característica marcante da relação de emprego.
Jamais deveremos admitir, por inércia ou incompetência, que o desemprego estrutural acaba se convertendo num problema insolúvel, provocando consequências imprevisíveis na economia e para a estabilidade democrática.
* Almir Pazzianotto Pinto é ministro vice-presidente do Tribunal Superior do Trabalho


