Investimentos são insuficientes para superar déficit de US$ 6 bi
PUBLICAÇÃO
domingo, 19 de março de 2000
Por Viviane Mottin 
São Paulo, 20 (AE)- Para que o Brasil reduza o déficit na balança comercial de produtos químicos, que no ano passado chegou a US$ 6 bilhões, seria necessário duplicar ou triplicar o investimento em novos empreendimentos do setor, previsto em US$ 10,4 bilhões nos próximos cinco anos - média de US$ 1,7 bilhão anual. "Análises de economistas da Associação Brasileira da Indústrias Químicas (Abiquim) apontam que, caso esses investimentos não ocorram, a tendência é de que o déficit aumente em função do crescimento do PIB", informa o vice-presidente executivo da Abiquim, Guilherme Duque Estrada de Moraes.
Segundo ele, se não fosse a instabilidade, a ciclotimia, da economia brasileira, a indústria química brasileira estaria mais desenvolvida. Para saber exatamente quais produtos químicos podem ser produzidos no Brasil substituindo as importações, a Abiquim, em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e o apoio do Ministério da Ciência e Tecnologia, está desenvolvendo um estudo que servirá como guia para novos empreendimentos no setor. "Pode ser que o estudo conclua, também, que não há qualquer oportunidade para a instalação de novas indústrias", previne.
O produto químico importado que mais pesa em volume na balança comercial brasileira é o cloreto de potássio. O composto
matéria-prima dos fertilizantes, não é nem será produzido no Brasil. Isso porque, embora o País conte com indústria de cloro e derivados, no território nacional não há reservas de potássio. Já as matérias-primas para a indústria farmacêutica, que mais pesam em valor na balança, serão estudadas sob o ponto de vista da viabilidade econômica. Muitas podem ser produzidas no Brasil, que possui os insumos necessários, mas devem continuar pagando royalties às multinacionais detentoras da patente do medicamento.
Guia de investimentos - Nesse "Raio-X" do que pode ser feito no País, diz Duque Estrada, serão relacionados casos de empresas que fecharam há cerca de dez anos por falta de condições financeiras e econômicas, dificultando a modernização tecnológica. Os insumos que elas produziam, hoje são importados. A volta por cima seria implantar novamente as indústrias, agora em condições de competir com os importados. E mais, até produzir em grande escala com excedentes para exportação. No ano passado, o Brasil importou US$ 9,774 bilhões em produtos químicos e exportou US$ 3,442 bilhões.
O estudo pretende mostrar novos nichos do setor a investidores estrangeiros, mesmo que as maiores multinacionais mundiais do setor, como Basf e Dow Chemical, já tenham bandeira no País. Aliás, outro levantamento da Abiquim, que também deverá ser concluido neste semestre, é sobre as bandeiras estrangeiras no setor químico brasileiro. Para os empresários locais, afirma Duque Estrada, o estudo sobre as oportunidades no setor químico brasileiro servirá a empresários locais em busca de financiamento para negócios que tenham a ver com a superação do déficit na área.
Entraves brasileiros - "As multinacionais optam por novos negócios onde há maiores vantagens", observa o vice-presidente da Abiquim. Uma das desvantagens brasileiras, por exemplo, é a fatia do valor adicionado na produção que vai para as mãos do governo, em forma de ICMS, IR, IPI, Cofins, INSS etc. Enquanto nos Estados Unidos essa remuneração do governo é de 12%, no Brasil ela chega a 35,7% sobre o valor adicionado e a 13,4% sobre a receita bruta das empresas do setor químico.
No guia não estarão relacionadas oportunidades para a produção de insumos e matérias-primas para a indústria petroquímica, que é um segmento do setor químico. Isso, porque, a capacidade instalada para a produção de 2,835 milhões t/ano de eteno, insumo principal das resinas termoplásticas, faz com que o segmento além de dar suporte ao mercado interno tenha excedentes de 900 mil t/ano para exportação.
Além disso, dentro dos próximos cinco anos, saem do papel dois novos pólos: o gás-químico do Rio de Janeiro, e o petroquímico de Paulínia, em São Paulo, que juntos terão capacidade produtiva para mais de 1 milhão t/ano. E, ainda, no Mercosul, o pólo de Bahia Blanca, na Argentina, sob comando da Dow Química, que em um ou dois anos deverá produzir mais 700 mil t/ano de resinas termoplásticas. Investimentos do setor químico até 2005 SegmentoEm US$ bi Produtos químicos de uso industrial4,4 Produtos farmacêuticos1,8 Higiene pessoal, perfumaria e cosméticos1,8Adubos e fertilizantes0,6 Defensivos agrícolas0,8 Tintas, esmaltes e vernizes0,5 Total10,4 Média anual1,7 Fonte: Abiquim


