Investimentos espanhóis começam a fazer da AL uma nova potência econômica4/Mar, 17:57 Por Vladimir Goitia São Paulo, 4 (AE)- A dependêcia econômico-financeira e política da América Latina em relação aos Estados Unidos desde a sua independência da Espanha e Portugal, há quase dois séculos, começa a desaparecer com o surgimento de uma nova potência econômica. Embora os ativos norte-americanos acumulados durante esse período da história latino-americana mostrem significativa supremacia, os investimentos de conglomerados espanhóis começam a jogar um papel de extrema relevância no desenvolvimento e liberalização econômica da América Latina neste final de século. No ano passado, 80% dos US$ 25,5 bilhões investidos pelos espanhóis em 114 operações de aquisição de companhias estrangeiras no mundo foram absorvidos por países latino-americanos, de acordo com dados da KPMG. Esse volume de capital supera, em muito, as 68 operações realizadas em 1998, quando as empresas espanholas investiram US$ 11,8 bilhões. Mas as estatísticas não se restringem apenas aos dois últimos anos da década de 90. Entre 1990 e 1998, os investimentos diretos totais das companhias espanholas no mundo somaram US$ 75 39 bilhões, dos quais a América Latina absorveu nada menos do que US$ 41,92 bilhões, ou 55,6% desses recursos. A União Européia, bloco do qual a Espanha faz parte, recebeu pouco mais da metade (US$ 27 bilhões) do volume direcionado aos países latino-americanos, enquanto que o Leste Europeu, Estados Unidos, ásia e áfrica juntas captaram apenas US$ 6,2 bilhões. Só em 1998, a Espanha investiu de US$ 18,3 bilhões nos países latino-americanos (40% no Brasil), cifra gigantesca se comparada aos US$ 1,3 bilhão recebidos pela na região em 1990. Com isso, a Espanha consolidou-se como o segundo maior investidor na América Latina em apenas oito anos, período em que os investimentos externos diretos (IED) do país pularam de apenas 29%, em 1990, para 72% em 1998, de acordo com dados da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe). Mas de onde veio ou vem todo esse interesse pela América Latina? "Da identidade cultural e histórica", responde Enrique Giménez de Córdoba, conselheiro econômico e comercial da Embaixada da Espanha em São Paulo. A identidade histórica e cultural entre a Espanha e a ex-colônia, entretanto, parece não ser suficiente para convencer os menos crédulos sobre a "confiança" dos espanhóis na região, onde ainda se detectam problemas de ordem econômico, político e social. "A economia latino-americana é vista hoje com outros olhos" argumenta Córdoba, em entrevista à Agência Estado, no elegante escritório da Embaixada espanhola no World Trade Center, em São Paulo. "Depois de vários anos de ajuste, seguindo diretrizes de instituições como o FMI, percebe-se que há uma grande responsabilidade dos países latino-americanos, o que fez cair o risco", explica Córdoba. De acordo com ele, a confiança espanhola foi reforçada ainda com a recuperação e a evolução da economia brasileira depois das sucessivas crises internacionais. "Depois da desvalorização do real, em janeiro do ano passado, as perspectivas para o Brasil eram trágicas, mas isso não se confirmou", diz o diplomata espanhol. Para Córdoba, as autoridades brasileiras têm mostrado gestão responsável e rigorosa na condução do País, o que prova a "maturidade latino-americana". Pressa - Para o economista Michael Mortimore, responsável pelo estudo "Investimento Estrangeiro na América Latina e o Caribe", da Cepal, a invasão espanhola se deve não apenas aos aspectos culturais, linguísticos, históricos e de conhecimento do sistema administrativo da região, mas também à dificuldade com a qual as companhias espanholas transitam no mercado europeu e mundial. A Cepal afirma que o motor da expansão internacional dessas empresas parece ser o processo de globalização, que vem sendo interpretado como "o surgimento, a longo prazo, de um único mercado universal". Segundo o organismo das Nações Unidas, cuja sede fica em Santiago do Chile, as companhias espanholas "têm pressa para estabelecer seus sistemas internacionais, já que consideram estar diante de uma oportunidade estratégica e única: a América Latina". Sobre essa estratégia, Córdoba afirma que as empresas espanholas não têm apenas como objetivo a expansão, mas a internacionalização de suas companhias. Embora o público brasileiro tenha conhecimento de apenas meia-dúzia, quando muito das companhias espanholas instaladas no País, como a Telefónica Banco Santander Central Hispano, Banco Bilbao Vizcaya Argentaria, Iberdrola, Repsol e Endesa, existem hoje no Brasil cerca de outras 200 empresas de pequeno e médio portes que chegaram na última década, informa Córdoba.