Investimento em serviços supera o industrial
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quarta-feira, 29 de dezembro de 1999
Por Mônica Ciarelli 
Rio, 28 (AE) - O Brasil nunca atraiu tanto investimento direto como em 1999, mas o perfil dos recursos que migraram para o País mudou radicalmente nos últimos cinco anos. A indústria perdeu espaço para as empresas do setor de serviços e as chamadas outras operações, que englobam segmentos importantes da economia brasileira, como o setor de extrativismo mineral e a agricultura.
Um estudo realizado pela economista e diretora da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais (Sobeet) Virene Matesco revela que a indústria absorvia 55% do fluxo de recursos externos até 1995. O quadro hoje é bem diferente. Entre janeiro e agosto deste ano, a indústria não acumulou mais do que 23,6% dos recursos estrangeiros dirigidos ao Brasil.
O setor de serviços cresceu de 43,4% para 47,9% e o de outras operações saltou de 1,6% para 28,6%. Essas outras operações englobam a extrativa mineral e a agricultura. "Essa é uma tendência mundial", afirma Virene. "A mudança no padrão de desenvolvimento também afetou os fluxo de capital."
A indústria já chegou a absorver mais de 70% do fluxo de dinheiro externo nos anos 60. A alteração no perfil reflete também a reestruturação do setor, que buscou a terceirização e a redução de seus custos. Nesse contexto, as atividades ligadas à área de serviços ou de suporte para a indústria começaram a absorver cada vez mais recursos.
Apetite - Outros destaques foram o crescimento do fluxo de capital para segmentos como o de instituições financeiras, telecomunicações e infra-estrutura. A entrada de bancos estrangeiros e a privatização do Sistema Telebrás em 1998 também contribuíram para aumentar o apetite dos investidores externos pelo Brasil.
O governo espera bater recorde este ano em captação de investimentos diretos, totalizando US$ 29 bilhões. Para o próximo ano, a equipe econômica trabalha com a expectativa de receber algo entre US$ 25 bilhões e US$ 26 bilhões.
A grande diferença em relação a este ano será o volume menor de dinheiro destinado ao programa de privatização. Somente com a venda de empresas estatais, este ano, o governo recebeu US$ 8,3 bilhões em investimentos diretos. Virene adverte que o governo festeja a entrada de investimento direto estrangeiro, sem lembrar do efeito adverso que pode ter sobre o balanço de pagamentos.
Parte significativa desse dinheiro está sendo aplicada na produção de itens não exportáveis, destinados apenas para o mercado interno. Com isso, é de se esperar um crescimento nas remessas de lucros e dividendos para o exterior.
"Esse processo somente será amortizado por meio de forte aumento das receitas de exportação", afirma a economista. Ela acredita que o governo deveria incluir como prioridade da política comercial brasileira o incentivo às empresas com forte potencial exportador.
Transparência - Uma das maiores críticas hoje em relação à política de comércio exterior do governo é a falta de transparência na divulgação dos fluxo de capital externo para o Brasil.
Segundo o economista-chefe do Banco Bilbao Vizcaya, Octávio de Barros, os dados são precários e dificultam uma análise mais profunda por parte dos analistas encarregados de acompanhar a evolução da economia brasileira.
"A contagem é feita apenas com investimentos acima de US$ 10 milhões e tudo que não é facilmente identificado entra como outras operações", reclama. Barros explica que o ingresso de dinheiro para holdings de indústrias no Brasil muitas vezes não acaba contabilizado para o setor industrial.


