Investigações no MA apontam para envolvimento de juízes
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 19 de outubro de 1999
Por Fausto Macedo e Gilse Guedes 
Brasília, 20 (AE) - As investigações sobre o crime organizado no Maranhão - próximo alvo da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico na Câmara - apontam para o suposto envolvimento de juízes num esquema de fornecimento de alvarás de fiel depositário, documentos que facilitam a circulação de carretas e cargas roubadas nas estradas do Norte do País. As primeiras revelações sobre a aliança de magistrados com grupos de fazendeiros, empresários e policiais civis e militares, além de políticos maranhenses, foram feitas pelo assaltante Antonio Carlos Maia, mais conhecido como "Carlinhos".
Os deputados estaduais José Gerardo (PPB) - exercendo o quinto mandato - e Francisco Caíca (PFL) - segundo - são suspeitos de pertencer ao comando da organização, que tem ramificações no Acre, Piauí, Pará, Rondônia e Bolívia. Pelo menos dez assassinatos e roubo de cerca de cem carretas estão sendo atribuídos ao bando. O deputado cassado Hildebrando Pascoal (sem partido-Acre) tem ligações com os parlamentares maranhenses, segundo a Polícia de São Luís. O nome do deputado federal Augusto Farias (PPB-AL), irmão do empresário Paulo César Farias, o PC Farias, é citados nas apurações.
Condenado a 19 anos e nove meses de prisão pelo assassinato do delegado Stênio Mendonça - ocorrido em maio de 1997 -, "Carlinhos" depôs à CPI do Crime Organizado da Assembléia Legislativa do Maranhão. Contou detalhes sobre o derrame de alvarás, denunciou o coronel Deoclécio Correia Lima - da Polícia Militar do Piauí -, como receptador de caminhões roubados e indicou uma pista sobre a conexão com narcotraficantes bolivianos, por meio da rota de Ji-Paraná, em Rondônia.
A CPI do Maranhão foi instalada no início de outubro, por um requerimento do único deputado do PT no Estado, Jomar Fernandes. A Assembléia tem 42 deputados, 38 dos quais aliados da governadora Roseana Sarney (PFL).
Com sinal verde do Palácio do Governo, o presidente do Legislativo, Manoel Nunes Ribeiro Filho (PSD), endossou a instalação da comissão, formada por sete parlamentares. Os trabalhos tiveram início tumultuado. Um grupo de cinco deputados abriu mão de integrar a CPI, alegando motivos diversos. O primeiro presidente da comissão, Lourival Mendes (PT do B), renunciou no mesmo dia em que a delegada de polícia Deyse Aparecida prestou depoimento.
A delegada revelou que, há alguns anos, presidia o inquérito sobre o assassinato de um ex-funcionário de Gerardo e foi afastada do caso por ordem do comando da Segurança Pública. A apuração passou para as mãos o deputado Lourival Mendes, que também é delegado.
Constrangido, Mendes renunciou à presidência da CPI, dando lugar para o deputado Rubens Pereira (PSD). A deputada Telma Pinheiro (PFL) também renunciou.
No depoimento, "Carlinhos" afirmou que, em 1995, comprou de Lima um caminhão roubado. Pagou R$ 15 mil. O motorista da carreta - que foi levada de Teresina para São Luís - não enfrentou dificuldades com a fiscalização porque tinha no bolso um alvará de fiel depositário. A aquisição do caminhão foi parcelada e quase custou a vida do assaltante, segundo ele próprio afirmou. "Carlinhos" disse que pagou o coronel em duas vezes. Deu R$ 10 mil em dinheiro e R$ 5 mil em cheque. Como o cheque estava descoberto, o oficial piauiense teria ameaçado de morte o ladrão. "Custei para cobrir a dívida", contou. "Carlinhos" também falou da conexão com o narcotráfico. "Levei duas carretas para Ji-Paraná (RO)." Os caminhões seriam entregues a um certo "dr. Luís" que faz as encomendas com preferência para carros Volvo. O tal "dr. Luís" alega que as estradas da Bolívia "são muito ruins." Os pagamentos são feitos em dólar ou em cocaína boliviana. A droga é levada para São Luís. "Não sei com quem fica as partidas de pó", disse "Carlinhos". Segundo ele, "poucos têm acesso ao carregamento." O ex-delegado do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) no Pará João José Soares Costa deveria depor hoje, mas a sessão da CPI do Crime Organizado foi adiada. O gerente de Segurança, Justiça e Cidadania do Maranhão, Raimundo Cutrim - que está municiando a comissão com documentos -, pediu adiamento porque precisou fazer uma busca acompanhado de Costa. Segundo os deputados da comissão
Costa foi preso porque uma vez hospedou em sua casa, em Belém, o assaltante José Humberto Gomes de Oliveira, mais conhecido como "Bel", líder do bando que matou o delegado Mendonça. Um ano depois da morte do policial, "Bel" e quatro cúmplices foram emboscados e mortos na Rodovia BR-316, a poucos quilômetros da fazenda de Gerardo.


