Investigação não responde se houve massacre em Kosovo
PRISTINA, Sérvia, 17 (AE-REUTERS) - A autora de um longamente esperado relatório de especialistas em medicina legal sobre a morte de 40 albaneses étnicos na vila kosovar de Racak em janeiro disse hoje (17) que a morte deles constituia um "crime contra a humanidade".
Mas a doutora Helena Ranta, que chefiou a equipe finlandesa contratada pela União Européia para realizar as 40 autópsias, recusou-se em classificar o evento de massacre ou acusar as forças de segurança sérvias, como o fez aqui em janeiro o chefe da missão de monitoramento da OSCE.
Ranta disse que apenas uma investigação criminal promovida pela Iugoslávia ou por Haia seria competente para fazer tal afirmação.
"Foi um crime contra a humanidade, sim", afirmou a finlandesa depois de ser duramente questionada por repórteres numa entrevista coletiva em Pristina.
"A questão de quem cometeu esse crime não é respondida aqui".
Renta disse que o relatório final da sua equipe pesava 41 quilos e incluía 3.000 fotografias e 10 horas de vídeo.
William Walker, que chefia a Missão de Verificação de Kosovo (KVM) da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) afirmou que não havia nada no relatório que o fizesse rever sua alegação original de que tratou-se de um massacre cometido por tropas sérvias.
"Minha reação pessoal é que não ouvi nada na apresentação que contradiz minhas conclusões originais", disse Walker à REUTERS depois da entrevista coletiva de uma hora de Ranta em Pristina.
"Se chamamos de atrocidade, massacre ou crime contra a humanidade, como fez a doutora, temos descrições de testemunhas, evidências, totalmente consistentes com o que eu classifiquei em janeiro".
Albaneses étnicos, 90% da população em Kosovo, que esperavam que Ranta desse um veredito definitivo sobre o incidente de Racak deixaram a entrevista coletiva descontentes.
"Por que ela se incomodou mesmo em vir aqui?" questionou Baton Haxhiu, editor-chefe do Koha Ditore, o principal jornal em língua albanesa de Kosovo.
Os sérvios não estavam menos insatisfeitos. "Isto é uma fumaça intencional lançada sobre a verdade", disse Radovan Urosevic, diretor do Centro de Imprensa Sérvia em Pristina, depois da apresentação de Ranta.
"Sabíamos desde o primeiro momento em janeiro que não tratava-se de um massacre. Seu relatório foi muito insatisfatório, não profissional".
O relatório de medicina legal estava sendo enviado hoje para a Iugoslávia e autoridades da União Européia e também será entregue ao Tribunal de Crimes de Guerra da ONU em Haia. Não estava claro hoje como ou se o relatório terá desdobramentos.
Em ou por volta de 15 de janeiro pelo menos 45 albaneses étnicos foram mortos em Racak, onde forças de segurança sérvias promoviam uma operação de contra-insurgência.
Quarenta dos corpos foram resgatados e levados para um mortuário em Pristina, onde a equipe finlandesa os viu pela primeira vez em 22 de janeiro, depois que eles foram repetidamente levados de um lugar para outro, estragando a "cadeia de custódia" vital para precisar análises forenses.
O governo tem explicado as mortes com sugestões de que as vítimas eram guerrilheiros separatistas do Exército de Libertação do Kosovo (ELK) que foram mortos em combate.
Algumas autoridades têm dito que os uniformes deles foram trocados por roupas civis depois que eles foram mortos e que 22 dos corpos teriam sido levados pelo ELK para o barranco onde foram encontrados e arranjados de tal forma que sugerisse um massacre cometido pelos sérvios.
O relatório de Ranta refuta a maioria dessas sugestões. Num sumário impresso de suas descobertas ela disse que:
- Os 22 homens que estavam mortos no local "foram bem provavelmente encontrados onde foram baleados".
- "Não há indicação de que as pessoas não sejam civis desarmados".
- "É muito improvável que as roupas foram trocadas ou removidas".
E em relação à questão de se os mortos estiveram de alguma forma envolvidos em uma batalha com forças de segurança, Ranta afirmou: "Bem provavelmente a resposta é não, não houve luta".





