Após um mutirão de nove meses, a expectativa é que o Paraná constitua uma base de dados que promete tornar mais consciente a relação de 12 milhões de pessoas com as águas invisíveis que estão no subsolo.

Equipes técnicas da Sanepar e do Laboratório de Pesquisas Hidrogeológicas (LPH) da Universidade Federal do Paraná já estão em campo na Região Metropolitana de Curitiba para investigar o volume e a qualidade da água extraída por poços tubulares, numa investigação científica inédita que eleva de 90 parâmetros - a quantidade exigida pela legislação ambiental - para 300, graças a um pacote tecnológico que inclui o uso de satélites.

Até meados do ano que vem, o projeto Segurança Hídrica com Águas Subterrâneas (SEGHIDRO) deve vasculhar os 11 aquíferos que abastecem mais de 2 milhões de moradores em 630 localidades. Nesta primeira fase serão coletadas amostras de cerca de 1,2 mil poços e 60 nascentes. Além de geólogos e químicos, a força-tarefa envolve 100 técnicos que foram treinados pela Sanepar para acondicionar adequadamente as amostras, com manejo ágil e seguro até que elas cheguem ao laboratório. Após o fim desta primeira fase, serão selecionados 700 poços para monitoramento contínuo e trimestral, com o objetivo de acompanhar eventuais mudanças sazonais e apontar tendências para cenários a longo prazo.

COMPOSIÇÃO QUÍMICA

“Os mananciais são impactados com novas atividades nos territórios das bacias e o projeto vai ser fundamental para fazermos a gestão de riscos, que exigem muito mais informação do que as que somos obrigados a gerar conforme a previsão legal”, explica Ester Amélia Assis Mendes, gerente de Recursos Hídricos da Sanepar. “Como vamos fazer a coleta com os mesmos protocolos e com o mesmo padrão, vamos ter uma base única de comparação”, explica. “A gente começou pela região de Curitiba pela facilidade logística. Vamos observar a dinâmica do processo e aprender com os erros, treinar os laboratórios, familiarizar os técnicos”.

A água é acondicionada em dois tipos de frascos. Um maior, de um litro, vai analisar metais e outros parâmetros, e um outro menor, para análise bacteriológica. “Além disso, a gente tem uma sonda de mão que para investigar parâmetros no local, na hora da coleta, como o PH, o oxigênio dissolvido”, explica. A estimativa da gestora é que a cada mês amostras de 130 poços sejam enviadas para o laboratório. Depois da RMC, o mutirão vai percorrer as regiões Oeste e Sudoeste. No Norte do Estado, a previsão é que a pesquisa nos poços tubulares comece no primeiro trimestre de 2026.

“O projeto tem o objetivo de definir as características químicas de cada um dos aquíferos para guiar os procedimentos operacionais de uma rede de monitoramento que será implementada pela Sanepar. A primeira meta é fazer um diagnóstico hidrogeoquímico do conjunto dos poços que abastece a população”, explica Gustavo Barbosa Athayde, doutor em geologia e diretor do núcleo científico do LPH-UFPR.

PROJETO HIDROSFERA

“É uma logística sem precedentes no país, inspirado em outro projeto que temos com a Itaipu e que agora vamos levar para todo o Estado. Desenvolvemos alguns métodos lá no Oeste e vamos agora aperfeiçoá-los. É uma logística muito criteriosa porque entre a coleta do poço e a chegada da amostra no laboratório segue uma série de regras. Depende de muito treinamento da equipe, de veículos robustos e ágeis, de geladeiras portáteis”, explica.

Athayde se refere ao projeto Hidrosfera, que desde 2018 investiga o Aquífero Serra Geral no Oeste do Estado. A iniciativa do Itaipu Parquetec tem o mesmo interesse do SEGHIDRO, que é subsidiar a gestão pública para a exploração sustentável do tesouro de água límpida. O manancial subterrâneo é responsável por quase 90% do abastecimento de água daquela região. O trabalho é inovador porque monitora um sistema aquífero fraturado, na qual a água circula por fendas entre as rochas.

Para compreender a assinatura química da água, a cada três meses uma equipe técnica percorre 3 mil quilômetros para a coleta de amostras nos poços tubulares dotados de sensores automáticos. As informações contidas nas amostras são cruzadas com dados de satélite e medições manuais, permitindo estimar períodos de recarga ou queda do aquífero. Para comparar, são analisadas também amostras de chuva e das águas superficiais, o que permite entender possíveis fluxos de contaminação.

SATÉLITES E CONTINHAS

Os satélites GRACE (Gravity Recovery and Climate Experiment) giram em uma órbita de 500 quilômetros da Terra e detecta minúsculas mudanças no campo gravitacional do planeta.

Essas sutis variações são causadas, por exemplo, pelo movimento de grandes quantidades de água armazenadas no subsolo. Isso permite que os cientistas desvendem as mudanças no volume total de água subterrânea em vastas regiões. “Com os dados dos satélites, eu posso fazer aquela continha que a gente chama de balanço hídrico, quanto chove, quanto que evapora, quanto que escoa, quanto que infiltra. Com isso eu sei os volumes disponíveis para a extração e qual a velocidade de recarga”, explica o geólogo. Os dados funcionam como uma verificação cruzada para os dados das medições do trabalho de campo.

O trabalho da Sanepar e da UFPR iniciado em outubro deve ajudar a população paranaense a entender a importância da gestão das águas subterrâneas em um contexto de mudanças climáticas, no qual os modelos pluviométricos tendem a se alterar a longo prazo, com chuvas mais intensas e períodos de secas mais longos. “Nosso desafio é conscientizar a população. Temos que comunicar à sociedade que estamos diante de um tesouro natural. Compreender o seu valor é o primeiro passo para protegê-lo da contaminação e da exploração excessiva”, defende Athayde.

POÇOS NÃO REGISTRADOS

O Sistema de Informações de Águas Subterrâneas (SIAGAS), do Serviço Geológico do Brasil (SGB), tem registrado em sua base de dados 382.333 pontos de água/poços, representando um aumento de 3,35% em relação a 2023. No período de janeiro a dezembro de 2024, 12.693 novos poços foram adicionados à base de dados.

Dados do Censo Demográfico de 2022 apontam que 28 milhões de brasileiros dependem da água do subsolo. Cerca de 40% das cidades brasileiras dependem totalmente deste tipo de manancial. Mas uma das ameaças é o descontrole na exploração, com os chamados poços não registrados.

Artigo publicado no ano passado pelo Centro de Pesquisas de Água Subterrânea da Universidade de São Paulo sustenta que existem 2,5 milhões de poços tubulares (artesianos) no Brasil e que 88% não tem outorga de operação, emitido por órgãos estaduais. A estimativa é que este poços extraiam mais de 17 bilhões de litros por ano. “Logo, há uma subnotificação do número de usuários das águas subterrâneas, que vão além do uso residencial, sendo a fonte primária para muitos shopping centers, hotéis, lavanderias, aeroportos, além do uso na indústria e na irrigação agrícola, movimentando uma economia de mais de R$ 100 bilhões anuais”, afirmam os pesquisadores.

No Paraná, o controle sobre a exploração dos aquíferos fica a cargo do Instituto de Água e Terra (IAT). Danielle Teixeira Tortato, gerente da Gestão de Bacias, admitiu que a fiscalização em relação aos poços sem registro é um grande desafio e que o órgão trabalha para conscientizar as empresas que fazem as perfurações, para que elas entendam que há uma necessidade do poder público saber onde a água está sendo captada e qual é o volume extraído. Ela informou que o IAT está buscando financiamento internacional para criar sua própria rede de monitoramento. “O trabalho que a Sanepar e a Federal estão fazendo somado ao que o IAT vai implementar serão complementares e vão ajudar a descobrir as regiões que estão em déficit de reposição”, explicou.

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