São Paulo, 22 (AE) - A combinação juros em queda e bolsas em alta vem mudando a estratégia dos investidores bem antes do que se esperava. Desde março, administradores de fundos de investimento constatam uma migração das aplicações em papéis pós-fixados - aqueles que acompanham as variações das taxas de juros - para outras que apresentam algum grau maior de risco. São os fundos de ações ou mistos, com parte da carteira abastecida com papéis negociados nas bolsas, de bancos, empresas privadas e estatais. Também vão ganhando fôlego as operações no mercado de derivativos, os mesmos que ganharam destaque na CPI dos Bancos, criada para investigar a operação de socorro do governo aos Bancos Marka e FonteCindam, justamente pelas posições em dólares.
Para ter uma idéia, a Síntese, empresa paulista de administração de recursos de terceiros especilizada em renda variável, recuperou, em pouco mais de um mês, os recursos que haviam migrado para a renda fixa. A perda correspondeu, de dezembro a março, a cerca de 10% de uma carteira total de R$ 140 milhões.
A rapidez da migração para aplicações de risco surpreende tanto quanto os resultados da recuperação da economia brasileira. E talvez esteja aí o motivo da realocação dos portfólios. "A baixa volatilidade, sem dúvida nenhuma, influencia as decisões de investimentos", afirma o sócio-gerente da BankBoston Asset Management, Fábio Oliveira. A Bovespa acumula uma valorização superior a 80% no ano e não registra fortes oscilações na mesma frequência com que se verificava no auge da crise.
Na prática, o cenário atual é o canto da sereia para atrair investidores sem a disciplina exigida nas aplicações mais longas, especialmente num período de indefinições como o atual. Segundo Oliveira, a solução para os problemas que levaram o País a enfrentar a crise recente está encaminhada, mas não pronta. Se começarem a surgir sinais de atraso no cronograma, a volatilidade vai retornar.
A economia brasileira atravessa uma fase de transição e antes de o investidor (grande, médio e, principalmente, pequeno) assumir posições mais definitivas deve levar em conta a possibilidade de reviravoltas. E por mais que os ganhos com a renda fixa estejam minguando, por conta da queda dos juros básicos, a taxa real (descontada a inflação) ainda está elevada, devendo permanecer assim durante um bom tempo.
A pergunta que economistas e executivos do mercado fazem
agora, é qual o nível de queda aceitável para evitar que os ganhos financeiros acumulados até o momento se dirijam para o consumo, produzindo inflação de demanda. Na opinião do economista Celso Martone, por exemplo, o juro real deveria estar alinhado ao custo médio externo do Brasil. "A taxa de retorno de um financiamento externo deve estar em 10% anuais, por aí deveriam ficar os juros reais", disse. Isso significa que a taxa nominal deve sofrer novas quedas. Para o economista, também diretor da MCM Consultores, as contas externas brasileiras ainda estão muito vulneráveis às incertezas internacionais.
Mais do que a atual crise na Argentina, a recente mudança de tendência das taxas de juros norte-americanas é um sinal dessa vulnerabilidade. O Federal Reserve (Fed) - o BC dos EUA - mudou o viés de neutro para alta, uma medida preventiva diante do resultado da inflação de 0,7% em abril, a maior em nove anos. Martone explica que essa alta foi pontual, por causa da elevação do preço do petróleo de 60%, em 12 meses, implicando repasse de preço de 20% para os consumidores, de dezembro a abril. É natural que o Fed espere mais 30 ou 60 dias para verificar se a alta continua e então promover um ajuste efetivo na taxa básica. Mas, se continuar, o juro subirá e, dependendo da intensidade, pode mudar o fluxo de capitais dos mercados emergentes para os EUA. Além disso, diminuiria o crescimento econômico, afetando as exportações brasileiras.
O mercado financeiro considera esse um cenário que levaria a uma interrupção na queda dos juros brasileiros. As exportações estão reagindo mais lentamente do que se esperava com a desvalorização do real e, de acordo com Carlos Henrique Mussolini, diretor de Carteiras do Banco Itaú, a retração da economia abaixo do esperado está provocando um nível de importações maior que o desejado. O preço das commodities está em baixa e os mercados emergentes compradores de produtos brasileiros - ásia, por exemplo - ainda não se recuperaram. Ou seja, a vulnerabilidade pode não diminuir, mantendo a necessidade de financiamento externo e, portanto, de taxas de juros elevadas.
José Julio Senna, também da MCM, pondera que, apesar da possibilidade de desequilíbrio na balança comercial, que poderia pedir uma alta na taxa de câmbio, "parece que será possível mantê-la na faixa de R$ 1,70 e a relativa estabilidade do dólar permitiria manter a estratégia de redução da taxa nominal de juros.
Martone acredita na retomada da recuperação brasileira a partir do terceiro trimestre e ressalta que os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) refletem a variação de produção (e não renda), por isso o resultado do primeiro trimestre não indica retomada da economia. Mais que isso, os dados mostram que o resultado geral foi particularmente influenciado pela produção agropecuária e, quando esse efeito é excluído, tanto a indústria quanto o setor de serviços seguem em queda. Portanto, os dados do primeiro trimestre não justificam a alteração das projeções da MCM de queda do Produto Interno Bruto (PIB) de 1,9% este ano. Mas já foi pior, de 3% em fevereiro.
O crescimento efetivo da economia, porém, ocorrerá com a queda dos juros reais para níveis internacionais, cerca de 3,5% ao ano. Mas, para isso acontecer, os problemas da economia brasileira precisariam estar solucionados. Como disse o professor do Massachusetts Institute of Technology (MIT) Paul Krugman, se os juros reais do País fossem iguais aos do Primeiro Mundo, o Brasil cumpriria os rígidos critérios da União Monetária Européia, o que não corresponde à realidade atual. Para ele, o nível "razoável" para os juros reais, no momento, é de cerca de 10%.

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