e agências, de Itaquiraí

Álvaro OrsiDe prontidãoOs sem-terra que ocuparam a fazenda Santo Antônio disseram que estão sendo vigiados por pistoleiros e prometeram resistir a um eventual ataqueOs sem-terra que no sábado de madrugada invadiram a fazenda Santo Antônio, em Itaquiraí (412 quilômetros de Campo Grande) temem um confronto armado no local. Os acampados disseram que estão sendo vigiados por pistoleiros armados com espingardas e revólveres e prometeram resistir com ‘‘foices e enxadas’’ a um eventual ataque. Os pistoleiros estariam escondidos dentro da mata da fazenda. Ontem o clima era tenso entre as 1.200 famílias invasoras.
O prefeito de Itaquiraí, Renato Tonelli (PMDB), disse não acreditar no confronto. ‘‘O proprietário não faria isso e ninguém vai aceitar sangue aqui’’, declarou. Segundo o coordenador do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) na área invadida, Antônio Alves, 31 anos, não será novidade se homens armados tentarem retirar os sem-terra à força. ‘‘A pistolagem é uma tradição aqui’’.
Tonelli, que viajou ontem para Brasília, negou que vai entrar com pedido de reintegração de posse da fazenda em nome do empresário João Bertim Filho, de Lins, município localizado a noroeste de São Paulo. Segundo o prefeito, o pedido deveria ser feito ontem pelo proprietário, no Forum de Naviraí (MS). ‘‘Mas eu não posso aceitar a invasão porque ela vai acabar com o município’’. De acordo com Tonelli, faltam vagas e remédios nos hospitais e postos de saúde da cidade. Pelo menos 300 crianças estão sem escola.
O superintendente-adjunto do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) no Estado, Paulo Afonso Condé, informou que o dono da fazenda entrou em contato com o órgão e disse que vai pedir na Justiça a reintegração de posse da propriedade. Ainda segundo Condé, o Incra só vai vistoriar a área quando os invasores a desocuparem. ‘‘Não entramos de forma nenhuma em área invadida’’, afirmou.
O problema, de acordo com prefeito, começou com a regularização de dois assentamentos no município, em 1989, durante seu primeiro mandato como prefeito. A antiga fazenda Itaçu, de 14,2 mil hectares, foi dividida em dois assentamentos: o Indaía, com 632 lotes e o Sul Bonito, com 422 lotes, cada lote representa uma família assentada.
Apenas o Indaía, às margens do Rio Paraná, conta com infra-estrutura básica. No Sul Bonito, segundo o prefeito, não há nem estrada. Além disso, segundo ele, a prefeitura está em estado de emergência, devido a cheia recente do Rio Paraná. ‘‘Estou pagando os salários atrasados de cinco meses de funcionalismo e não temos dinheiro para nada’’. A arrecadação média de Itaquiraí é de R$ 280 mil.
O prefeito disse que passa a apoiar o novo acampamento dos sem-terra se os governos estadual e federal se comprometerem a assumir parceria para abrigar as famílias em um novo assentamento. Para Antônio Alves, o prefeito tenta desviar sua ‘‘inimizade’’ com os sem-terra. ‘‘Mais gente no município significa mais impostos, mais eleitores, mais movimento no comércio e mais força de trabalho’’, observou. O prefeito e a liderança dos sem-terra ainda não conversaram pessoalmente.
De acordo com o IBGE, Itaquiraí tem 13.026 habitantes. A população aumentou depois do primeiro assentamento, em fevereiro de 89. Até então o município tinha cerca de sete mil habitantes. Com a invasão na fazenda Santo Antônio, uma das maiores e com as terras mais férteis do Estado, a população está próxima dos 15 mil habitantes.
Ontem havia divergência quanto ao número de acampados na fazenda. Segundo o MST eram 1,2 mil famílias. Nas contas de Tonelli poderia chegar a aproximadamente 2,5 mil famílias. Segundo o prefeito, os invasores chegaram em 14 ônibus, quatro deles com inscrições de prefeituras da região. O MST negou a denúncia. ‘‘Os próprios companheiros locaram os ônibus, mas não veio nenhum de prefeitura’’, disse o líder Antônio Alves.
Segundo o MST, os colonos vieram de 25 municípios e foram transportados em carros particulares, ônibus e caminhões fretados pelos próprios invasores. A operação para a invasão, disse o líder sem-terra Egídio Brunetto, 40, levou dois meses para ser planejada e executada. ‘‘Tudo foi descentralizado, cada cidade fez sua parte’’, disse. O custo não foi revelado.

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