Londrina - ''A polícia chega e se surpreende com o lugar. Eles já até me elogiaram, porque nem parece um mocó''. Faz pouco mais de um mês que Edson Rodrigues vive num imóvel abandonado na Rua Souza Naves. ''Quando cheguei aqui estava uma bagunça, você não via os azulejos, só sujeira. Estava bem porco'', diz Rodrigues, que mora na rua há dez anos.
Enquanto apresentava o mocó bem-cuidado, Rodrigues contou sua história. ''Nasci em Londrina, na Santa Casa, fui criado na Vila Casoni. Mas saí cedo de casa, comecei a trabalhar fiz curso de metalúrgico e montador de carro, exercia profissão, tenho mais de 24 anos de carteira'', conta.
Rodrigues conviveu com três esposas e tem um filho e duas filhas. Aos 44 anos, espera mudar de vida. ''Não quero ficar aqui para sempre. Faz um tempo que busco juntar uma grana, conseguir trabalho, se Deus quiser vou conseguir'', declara ele, que divide o imóvel com Márcio Gomes da Silva, que está há quatro anos no local, e outro companheiro conhecido como Pintor. ''De vez em quando recebemos visitas. Mas ninguém usa droga aqui, só uma pinga de noite. Eu cuido do lugar, limpo, faço comida enquanto os outros estão trabalhando.''
Já passava das 17 horas quando Rodrigues começou a preparar o jantar. No cardápio, sopa de feijão. O fogão - quatro tijolos e duas latinhas com álcool - esquentava a panela. ''Para cozinhar a pessoa tem que gostar, senão não adianta. Eu vivi mais de um ano na Praça Primeiro de Maio (onde fica a Concha Acústica) e fazia comida lá, com lata de tinta, para mais de vinte pessoas'', lembra.
A obsessão pela limpeza vem da avó. ''Desde pequeno ela já ensinava. Eu não consigo conviver com bagunça'', diz. Todos os dias ele ajeita o imóvel, dobra cobertas e até alinha tênis dos companheiros nos quartos. ''Quando cheguei aqui o meu cantinho onde fico estava feio demais. Peguei uma escovinha, ajoelhei e lavei todo o chão.''
Recentemente um engenheiro visitou o local, representando o proprietário do imóvel, e avisou os ocupantes que o prédio será demolido. Mas Rodrigues parece não ter se abalado com a notícia. ''Vou tentar trabalhar para o dono, juntar uma grana e ir para o litoral. Meu sonho é trabalhar num restaurante. Alugar uma quitinete, ter uma TV, uma vida.''(D.B.)

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