Intifada pode virar contra Autoridade Palestina
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sexta-feira, 25 de junho de 1999
Por Gabriela Athias, enviada especial 
Gaza, 26 (AE) - Palestinos que vivem nos campos de refugiados de Gaza, mantidos pela Organização das Nações Unidas (ONU), ameaçam recomeçar a Intifada. A diferença é que, desta vez, as pedras, principal arma usada pelas crianças e jovens durante os confrontos com o Exército israelense, entre 1987 e 1994, não teriam como alvo os judeus e sim representantes da Autoridade Palestina (AP).
"A Intifada contra a autoridade palestina está sendo esperada", confirma Amar Dreni, de 29 anos, morador do maior campo de refugiados, Jabalia, onde vivem 80 mil pessoas em uma das maiores concentrações populacionais do planeta.
Halil, de 25 anos, que prefere manter o sobrenome em sigilo temendo futuras retaliações, foi um dos principais organizadores da Intifada no campo. Alistava outros adolescentes para jogar pedras nos soldados israelenses.
"Tínhamos um objetivo", explica. Hoje, Halil, assim como milhares de jovens, faz parte do porcentual de 90% de desempregados de Gaza, que já tem 1,5 milhão de habitantes, 60% dos quais, nos campos. Nos acampamentos, o desemprego atinge quase 100% da população.
"Chegou a hora de a Autoridade Palestina fazer alguma coisa pelo progresso da nossa região", diz Halil. Said Teeh, pequeno comerciante de especiarias do acampamento, diz, em tom preocupado, que os adolescentes não têm mais o que perder: "É melhor morrer lutando por uma vida mais digna do que morrer de fome", resume.
Muhamad Hoduan, um dos porta-vozes da AP, diz já ter ouvido "boatos" sobre a Intifada. No entanto, não acredita que isso vá realmente acontecer. "Vivemos uma situação econômica muito difícil. As pessoas estão realmente deseperadas, sem trabalho e sem perspectiva, mas isso é mais um desabafo do que uma possibilidade real", completa.
Há cerca de dois meses, segundo informações obtidas no campo, houve algumas tentativas de agressão contra representantes da AP. Esses conflitos foram contidos pela expectativa da criação do Estado, que acabou sendo adiada por causa das eleições em Israel.
Na segunda-feira, enquanto Yasser Arafat, prometia, durante a inauguração da primeira linha de telefone celular em Gaza, que o Estado seria criado até o fim do ano, comerciantes e desempregados debatiam o assunto que se tornou a agenda permanente dos palestinos: o fortalecimento da economia.
Mais do que as diferenças religiosas ou a eterna disputa territorial com os judeus, a preocupação dos palestinos, a curto prazo, é com a situação de miséria a que a maioria do povo está condenada. Em Gaza, assim como nas outras cidades da Palestina, não existe classe média. Há ricos e pobres, sendo que os primeiros, invariavelmente, mantêm relações comerciais com israelenses e os segundos ainda estão na condição de refugiados ou de desempregados.
"Não faz diferença ser engenheiro ou advogado. Aqui não há emprego para ninguém", diz Teeh, o vendedor de especiarias.
"Se Israel fecha a fronteira e ficamos sem trabalho, precisamos abrir outras portas", diz Adnan Shibraue, comerciante de Jabalia. Ele, assim como os outros empresários, acreditam que a criação do Estado trará investimentos para Gaza.
Para os refugiados, especialmente os jovens, a Autoridade Palestina não está retribuindo o esforço empreendido durante a Intifada. Os jovens acreditam que o movimento foi o maior mecanismo de pressão contra Israel e a opinião pública internacional pela criação do Estado palestino.
Sleman Al-Shafhe, jornalista em Gaza, diz que essas pessoas concordaram em interromper a Intifada para que Arafat pudesse voltar à Palestina. "Eles sentem-se traídos pelas autoridades locais, que depois de cinco anos não conseguiram melhorar em nada a vida deles, e revoltam-se contra a situação privilegiada dos funcionários de Arafat", explica.
Hoduan, o porta-voz, diz que esses privilégios não existem e os salários do pessoal do primeiro escalão costuma atrasar. Para ele, o grande empecilho para o desenvolvimento da região é o trânsito limitado dos trabalhadores palestinos. Para sair de Gaza e chegar a Ramallah (uma das maiores cidades palestinas) é preciso passar por Israel, mas nem sempre a passagem é autorizada, por motivos de segurança.
A vida de Hatem Elmensi, de 42 anos, é o espelho da situação econômica do palestino comum, que não é refugiado. Pai de 17 filhos (o mais velho de 21 anos e o caçula de 6 meses) é casado com duas mulheres, Ibtissan, de 39 anos, e Haman, de 30.
Para sustentar toda essa gente ele toma conta, com a ajuda das crianças, de uma plantação de laranjas que pertence a um proprietário rural palestino. Mora na fazenda - em uma casa que permite privacidade às duas mulheres - e recebe U$ 200 mensais. Como o dinheiro é escasso, a família Elmensi alimenta-se de chá, pão, zatar (uma espécie de tempero), folhas comestíveis que nascem no laranjal e tomates.
"Nosso maior luxo é juntar dinheiro para uma vez a cada três meses comer frango", diz. As crianças estudam na escola que a ONU mantém em Jabalia. A consulta com um médico palestino custa U$ 3, mas quando Ibtissan teve um derrame cerebral, a família foi obrigada a procurar um hospital público no Egito. Ainda assim, como dispõe de moradia, Elmensi considera-se um abençoado: "Tenho muita sorte de não precisar morar no campo", diz, ao referir-se à situação dos refugiados.
A maioria dos operários em atividade - cerca de 120 mil - trabalha em Israel. Mas para isso precisa cruzar a fronteira duas vezes por dia, para chegar ao emprego e voltar para casa. Esses trabalhadores esperam em pé várias horas para serem revistados pelo Exército israelense e ter a passagem autorizada, o que, depois da revista, pode não ocorrer. Quem for suspeito de ter participado de atos contra a segurança da população israelsense, não entra. Outros - cerca de 40 mil - trabalham em Erez, a zona industrial construída por judeus na fronteira. Para entrar nessas fábricas, basta percorrer um longo corredor de acesso, construído em território palestino. Esses trabalhadores não precisam ser revistados e os problemas de segurança, que muitas vezes levam ao fechamento da fronteira, não impedem o funcionamento das fábricas. Erez é uma espécie de Tailândia dentro de Israel. As fábricas produzem de colchões a equipamentos industriais pesados, mas o ramo mais forte é a indústria têxtil. Quem monta fábrica em Erez recebe incentivos fiscais e conta com mão-de-obra barata. Enquanto o operário desse setor em Tel-Aviv ganha cerca de U$ 38 por dia, em Erez recebe U$ 12.
Jehad Tufi Najar, gerente de uma das fábricas, explica que a produtividade do operário palestino é três vezes maior que a do israelense (tem direito a menos intervalos). Essas fábricas produzem roupas para grifes conceituadas, nas quais o preço médio de uma peça é U$ 100. "Sem Erez estaríamos em uma situação ainda pior", diz Najar, que emprega preferencialmente quem tem filhos para sustentar.
Se, de um lado, os operários enfrentam longas filas para entrar em Israel e vivem atormentados pelo desemprego, de outro os homens de negócios (que moram na orla de Gaza em mansões ou em edifícios luxuosos) têm passe garantido. "Há uma espécie de acordo especial para os homens de negócios", diz o porta-voz Muhamad Hoduan.
Hanuar Abdul é um dos maiores fabricantes de roupas de Gaza. Produz uniformes para empregadas domésticas, aeromoças, ternos para executivos, todo tipo de roupa de trabalho. Possui o cartão magnético que indica que jamais atentou contra a segurança de Israel e, desde 1967, cruza a fronteira com o próprio carro (os operários passam a pé).
Abdul conta que hoje o maior problema dos industriais, além da briga com o sindicato dos trabalhadores (que estão reivindicando os mesmos direitos dos operários do ocidente), é a limitação em relação às exportações. Toda a mercadoria que sai de Israel recebe um carimbo, que abre as portas do mercado europeu e fecha a dos países árabes. "Quando o Estado for criado, vamos ter mais liberdade", acredita.
Hoje, quem quer escapar dessa limitação mantém funcionários na Turquia, cuja função é receber mercadoria e trocar as etiquetas de "Made in Israel" para "Made in Palestina".


