Uma parada respiratória e outra cardíaca, durante o nascimento prematuro, quase causaram a morte do pequeno Manoah. Foram 28 dias lutando pela sobrevivência internado em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Mas, além disso, ainda havia a possibilidade de que o menino apresentasse sequelas como não andar e não falar, consequências da grave lesão cerebral causada pela falta de oxigenação durante o parto.
Hoje, dois anos depois, ele é uma criança normal, que corre, fala e brinca como qualquer outra. E o melhor: exames mostram que não há mais lesão cerebral. O que pode parecer milagre, é, na verdade, resultado de intervenção precoce - trabalho feito em Londrina pelo Espaço Escuta, uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip).
O objetivo do centro interdisciplinar, fundado em 2001 e credenciado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no ano passado, é fazer a identificação precoce dos indicadores de risco para o desenvolvimento infantil, e prevenir a instalação e o agravamento dos distúrbios globais do desenvolvimento. Casos como o de Manoah, que mostram como a intervenção precoce pode fazer a diferença. ''Existem amplas evidências, através de pesquisa qualitativa, que a detecção precoce produz uma mudança significativa no desfecho clínico da criança'', ressalta a psicanalista Vera Lúcia Dolens, uma das profissionais do Espaço Escuta.
''A gente sabe que o cérebro na criança ainda está em desenvolvimento, e que nesse crescimento alguns neurônios vão morrer. A idéia é então investir naqueles que iriam morrer para que migrem para outras áreas do cérebro que foram lesionadas, por exemplo'', explica Maribel Salles de Melo, também psicanalista, e fundadora e presidente do Espaço Escuta.
Isso tudo é feito com o trabalho de psicologia, fonoaudiologia, fisioterapia e terapia ocupacional, através de brincadeiras, nos primeiros meses de vida da criança. O grande diferencial de outros centros que também fazem atendimento multidisciplinar é que todos os profissionais, independente da área, passam pela formação em psicanálise.
O objetivo, com isso, é que o trabalho seja sempre feito pensando no sujeito como um todo e não apenas em tratar as partes isoladas. ''Isso é um grande diferencial porque todos os profissionais aqui tem conhecimento em desenvolvimento psíquico, e as atividades são propostas dentro disso'', ressalta Vera. ''Na fisioterapia, se o profissional só se preocupa, por exemplo, no alongamento porque há encurtamento do tendão, isso é trabalhar a função isolada. Mas, o que coloca a criança em movimento é o desejo, ela é movida por outra questões'', completa Maribel.
Assim, ressaltam as profissionais, o especialista também não é mero estimulador, ''mas aparece como um terceiro na relação mãe e filho''. ''Não como um substituto dela, mas como alguém que encontra-se sobredeterminado a desejar que a criança se desenvolva'', afirma Vera. Cada criança tem o que chamam de profissional de referência, aquele que faz o acompanhamento inclusive na escola, em casa, e no neurologista, e que solicita outras consultas quando necessário.
Depois do credenciamento pelo SUS, o Espaço Escuta ampliou o atendimento de 40 para 100 crianças, mas há uma fila de espera de 300. As crianças são encaminhadas de postos de saúde, médicos e escolas. O Espaço também é um local para a formação de profissionais, onde são oferecidos cursos de pós-graduação em Psicanálise e Transdisciplina, com 360 horas, e parte teórica e estágio.

Serviço: mais informações pelo site www.espacoescuta.org.br ou pelo telefone (43) 3339-4398, Londrina.

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