Interrogatório de surdo pode ser anulado
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 16 de outubro de 2007
Silvana Leão<br> Reportagem Local 
Londrina- O despreparo da sociedade brasileira para o convívio com pessoas com necessidades especiais ficou evidente mais uma vez ontem. O primeiro interrogatório do caso de Alexandre Oliveira Pontes, 21 anos, acusado de tentativa de assalto em uma loja de conveniência localizada na Área Central de Londrina, pode ser anulado porque o cartório da 2 Vara Criminal, onde corre o processo, não designou intérprete judicial para traduzir o depoimento do rapaz, que é surdo e mudo.
Uma intérprete levada pela família para acompanhar a audiência foi designada minutos antes para atuar oficialmente, mas sua participação foi questionada pelo Ministério Público. ''Tomei conhecimento que a intérprete era uma pessoa das relações pessoais do réu no decorrer do interrogatório, e então pedi a anulação do ato por entender que este trabalho deve ser feito por alguém designado pelo poder judiciário'', informou a promotora Siomara Nogari.
Ao final da audiência de 30 minutos, a juíza substituta Zilda Romero apenas confirmou que o interrogatório poderia ser anulado, mas disse que ainda não havia decidido a respeito. Caso seja anulado, novo interrogatório deve acontecer só no ano que vem.
''É muito triste este tipo de situação, vai atrapalhar muito a vida do Alexandre, que quer se mudar para Curitiba, onde mora sua mãe, mas continua em liberdade provisória'', lamentou o advogado de Pontes, Reginaldo Monticelli. O fato de estar em liberdade provisória faz com que o rapaz tenha que submeter-se a regras semelhantes às de quem vive sob condicional. Não pode ficar fora de casa após as 22 horas, tem restrições quanto a frequentar bares e está proibido de deixar a cidade, ainda que seja apenas a passeio.
O réu também afirmou, através de sua intérprete, que a situação é triste e cansativa. ''Quero ir embora logo e começar uma nova vida'', disse. A prisão ocorreu no dia 20 de fevereiro, após ser denunciado pelo proprietário da loja e detido dentro de um ônibus, minutos depois do suposto assalto, que segundo a família não passou de um grande mal entendido. Segundo a versão do comerciante, ele teria levantado a camisa para exibir um objeto semelhante a uma arma na cintura e feito um gesto pedindo dinheiro.
A suposta tentativa de assalto não foi consumada. A defesa de Pontes argumenta que o gesto feito à caixa da loja teria sido apenas para indagar o preço de um achocolatado. E o tal objeto na cintura, como a própria polícia constatou, era a carteira que ele iria pegar para pagar o produto.


