São Paulo, 26 (AE) - O nome de A.N.O., de 17 anos, tinha sido marcado em uma escova por outro interno da Febem. Era o sinal de que sua segunda passagem pelo Complexo Imigrantes tinha dia certo para terminar. O motivo: Gal, como A.N.O. era conhecido, desafiou um dos líderes dos menores numa briga. E sua hora, como previsto, chegou. Foi ontem. Morreu de tanto apanhar dos colegas - politraumatismo craniano, informou o boletim médico.
A história foi contada pela namorada, Solange Lacerda, de 24 anos. Ex-menina de rua que conseguiu se recuperar, Solange lembra de quantas vezes alertou o companheiro, com quem viveu por três meses, dos perigos da rua. "Eu vou, mas volto logo", dizia a ela, quando ia roubar. "Pelo amor de Deus, não apronta, Gal", retrucava a garota.
Os apelos não adiantavam. Por causa da droga - Gal fumava crack e bebia muito - ele virava a noite e desaparecia. Sua mãe, a desempregada Zelita Maria de Oliveira, de 49 anos, esperava por ele sentada no colchão, até o amanhecer. "Sabia que ele não estava fazendo coisa boa", conta. "Mas achava que dentro da Febem ele estava mais seguro". Invasão - Viviam todos juntos. Zelita, Gal, Solange e três irmãos do garoto. A família, simples, não tem onde morar. No domingo, Zelita pegou tudo o que tinha e invadiu um prédio abandonado, na Rua do Gasômetro. Foi na mudança que perdeu a única foto que restava do "moleque danado e brincalhão, que se debandou por causa dos amigos".
É nessa versão - a das más companhias - que Zelita prefere acreditar. Gal começou no crime aos 13 anos, contou a irmã, Graziela, de 18. Teve duas passagens pela Febem. A primeira em 12 de junho, quando ficou 45 dias, após ter participado de um assalto. A última detenção ocorreu em 16 de setembro e terminaria quinta-feira, quando Gal participaria de uma audiência. De lá, seria transferido para uma clínica para dependentes de droga. Na segunda prisão, Gal estava com amigos, que carregavam uma arma de brinquedo. Revolta - Graziela tem uma explicação diferente para os crimes do irmão da apresentada pela mãe. "Ele era muito revoltado com a morte do pai", disse. O pai morrera a facadas, num assalto, há 14 anos. "Não justifica, ele fazia coisa errada, mas não merecia ter morrido dessa forma", desabafou. "Ele era gente, apesar das confusões e das dificuldades". Além de tudo, Gal sofria de eplepsia.
Estudo? "Só até o segundo ano", contou Zelita. Assassinato? "Nenhum; ensinei meu filho a respeitar a vida", disse a mineira, criada no Espírito Santo. O motivo dos assaltos? "Não sei, a gente já sofreu muito na vida", respondeu a irmã. O sonho do menino? "Ser polícia", revelou a mãe.
A irmã, que tem vergonha de dizer onde mora com a mãe e os irmãos, é a mais revoltada. Contou ter procurado a Febem no domingo. O irmão lhe dissera que estava jurado de morte. "A assistente social disse que não tinha tempo para ver isso; insisti, disse que ele ia morrer", contou. "Esse governo não tem vergonha na cara; na Febem, se entra por causa de uma pedra e se sai de lá assassino", esbravejou Graziela. "E os menores devem se rebelar de novo, no dia 2".
A mãe, que evitava as lágrimas, estava disposta hoje a processar a Febem. "Eles tinham o dever de cuidar de meu filho". Zelita, que carregava a netinha de dois meses no colo enquanto lembrava do filho, decidiu continuar no imóvel ocupado. "Ele sempre me pedia para invadir, para não aceitar", contou. "Ele dizia: lá você tem companhia, não fica sozinha".
Amargurada, Zelita disse não desejar para ninguém a dor que sentia. "Criei com tanto carinho; várias pessoas falavam que cuidavam para mim, porque não tinha dinheiro, mas enfrentei tudo por eles". A violência de São Paulo assusta, mas deixar a cidade, agora, é algo impensável. "Enterrei meu filho aqui e daqui eu não saio".
O rapaz foi enterrado no cemitério São Pedro, na Vila Alpina, na zona leste da cidade. O clima era de muita tristeza.

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