"Internet é uma colônia de formigas, não um exército organizado", diz Negroponte
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quarta-feira, 27 de outubro de 1999
Por Júlio Moreno 
São Paulo, 28 (AE) - No final dos anos 70, Nicholas Negroponte foi praticamente expulso dos escritórios de executivos de algumas empresas de mídia, porque eles julgavam "completamente estúpido" sua sugestão de que as redações das TVs e dos jornais seriam unificadas. Mas o que ele dizia hoje faz todo sentido. A convergência entre os diferentes meios de comunicação, as telecomunicações e a informática, induzida pelo uso generalizado da tecnologia digital, quebrou o que no passado eram fronteiras bastante claras. Agora que executivos de todas as áreas pagam caro para ouvir as palavras de Negroponte, saibam todos que ele acaba de declarar que "redes descentralizadas irão substituir hierarquias, e os controles centrais serão substituídos por sistemas auto-organizáveis que se parecerão muito mais com a relação homem e natureza, do que com relações institucionais". Trocando em miúdos: é óbvia a tendência da Internet em modificar o papel que as pessoas exercem, mesclando a separação entre vendedor e consumidor, ou entre editor e leitor, por exemplo.
"A Net irá funcionar muito mais como uma colônia de formigas ou um bando de pássaros, e muito menos como uma corporação ou um exército. Nesse mundo descentralizado, grande parte dele organiza-se por si só, de um jeito que é difícil de imaginar num mundo onde a palavra oral fica limitada pelas restrições físicas da mobilidade humana", diz ele.
Essas e outras recentes previsões do famoso fundador do Media Lab (Laboratório de Midia), do seleto MIT (Massachusetts Institute of Technology), dos Estados Unidos, constam de entrevista exclusiva que a revista "Jornal dos Jornais" publicará em próxima edição, de novembro. A entrevista já está disponível na seção Mundo Virtual do site da Agência Estado (www.agestado.com.br). Ela nasceu de uma troca de emails com o jornalista Júlio Moreno, diretor de pesquisa e desenvolvimento da AE, empresa pioneira no Brasil na exploração da galáxia digital da informação, que ele visita nessa sexta-feira, dia 29. Negroponte vem a São Paulo, a convite da Fundação BankBoston, também para dar uma palestra sobre o uso das modernas tecnologias da informação na educação das crianças e dos jovens desfavorecidos e para gravar uma entrevista para o "Roda Vida" da TV Cultura.
Júlio Verne digital - Para o jornalista, seu entrevistado tem tudo para ser chamado de "o Júlio Verne da era digital". Aos seis anos de idade, quando alguém perguntava a Nicholas Negroponte o que ele queria ser quando crescer, a resposta era sempre "um construtor, porque adoro construir coisas". Aos 18, ele mesmo se fêz a pergunta e a resposta foi "quero ser Júlio Verne". Aos 22, já na escola de arquitetura do MIT , ele se deu conta de que mesmo que lhe faltasse talento, poderia se virar de algum jeito. O que de fato ocorreu a partir daí é que seu talento transbordou.
O Media Lab, criado em 1985, é um bom exemplo dessa criatividade. Trata-se "um ambiente acadêmico não tradicional, que reúne pessoas, culturas e idéias de uma forma que maximiza a inovação". São diversas as suas contribuições para de aprendizagem, new media, interfaces de usuários, computação embarcada, e-commerce e desenvolvimento. Sem contar as idéias que surgem a partir de suas pesquisas, hoje sustentadas por cerca de 180 companhias de todo o mundo entre elas, único caso brasileiro, o Grupo Estado. A organização brasileira é um dos patrocinadores do programa News in the Future (NiF), ao lao de empresas como The New York Times, Chicago Tribune, Gannett, Kodak, Clarin, LExpresso, Sun e BellSouth. O objetivo do NiF é estudar novas formas de edição, apresentação, armazenamento e distribuição de informações. Além do NiF, o Media Lab tem os programas como o "Things that think"( Coisas que pensam) e "Digital Life"(Vida Digital). Eles pesquisam assuntos como cinema interativo, roupas "computadorizadas", a "ópera do futuro", eletrodomésticos com múltiplas funções (como o forno de microondas que dá acesso à Internet) e até ambientes multimidia para se viver como quartos de crianças com paredes que interagem com seus ocupantes contando histórias infantis
Na entrevista, Nicholas Negroponte aconselha das empresas de comunicação a redefinirem seus modelos de negócio pós-Internet. Por exemplo, ao invés de se sustentar com a venda de de publicidade, melhor ficar com uma porcentagem das vendas geradas pelos anúncios. "Se o público já confia em sua marca para a informação, parece evidente que essa confiança passará para comunidade e comércio." Outra dica: "Jornais são domínios locais e a Net é predominantemente global. Se editasse um jornal na Argentina, por exemplo, gostaria de ter cada expatriado como meu leitor, buscando ser dominante num conteúdo global espanhol. O seu cliente no mundo digital não é o mesmo do mundo de papel".
Nesse contexto, torna-se importante que não apenas os executivos da mídia, mas também os profissionais se atualizem sobre as novas formas de expressão criadas pela digitalização dos meios. Engana-se, contudo, quem pensa que Nicholas Negroponte pensa apenas nos aspectos tecnológicos do futuro: "Como pano de fundo de tudo isso, deverão estar os valores editoriais sobre qualidade, privacidade e precisão, que por um lado deveriam prevalecer naturalmente, mas, de outro, são mais ou menos esquecidos hoje pela World Wide Web".
O consumidor assume o poder - Também o público tem seu papel redefinido. "O consumidor está numa novíssima posição de poder", diz o criador do Media Lab. É o público que, em última instância, vai classificar os sites da Internet, numa escala de valor de confiança, confiabilidade da informação publicada, e os valores ou o caráter ofensivo. "A Web irá criar uma compreensão muito mais ampla e sofisticada do que seja "ponto de vista" (ou opinião)".
Para ele, o futuro da TV hoje tão criticada pelo excesso de oferta e uma reduzida qualidade geral da programação
também é a distribuição via Internet, sob um novo modelo de negócio ainda por ser inventado. Os jornais, por sua vez, embora sejam eminentemente fontes de notícias locais, igualmente deveriam ampliar seu horizonte. "Nunca entendi porque o meu jornal local não oferece meios de poder consumi-lo quando viajo. Pense local e aja global é o meu lema".
Em termos tecnológicos, Negroponte diz que existem dois conjuntos de desenvolvimentos que irão afetar os jornais, embora não insuperáveis: um afeta o meio e o outro a mensagem. "O meio papel é realmente terrível. É insatisfatório por causa de seus custos, efeitos ecológicos, não interatividade, sem falar na tinta sujando as mãos. Isso será substituído por um meio de disponibilização computacional, que tem o visual e o toque do papel, a interatividade dos computadores, e mantém suas mãos limpas. Essa alternativa pode assumir diferentes formas, e a mais conhecida, desenvolvida pelo MediaLab, é o papel eletrônico.
"O segundo conjunto de desenvolvimentos é a inteligência. Nas próximas duas décadas, iremos compreender cada vez mais como os computadores poderão entender o significado e o sentido do conteúdo da informação. À medida em que essa tecnologia se desenvolva, os usuários poderão envolver-se com questões mais significativas, e as empresas provedoras de informação poderão oferecer conteúdos mais ricos. O computador e o jornalista serão uma espécie de colaboradores no futuro. Uma matéria poderá ter a capacidade de contar histórias sobre si mesma".
Educação e comércio eletrônico - revela a entrevista de Nicholas Negroponte - são outras áreas de interesse crescente do Media Lab, por serem dois importantes vetores de desenvolvimento. "Poucos duvidam da importância da educação, já que os motivos são múltiplos. Para alguns, educação significa a criação de novos mercados. Para outros, ela possibilita a auto determinação. E para ainda outros ela refere-se ao enriquecimento pessoal e a paz interior. Mas, o que essas amplas perspectivas têm em comum é a crença que um mundo com educação é um mundo melhor, com maiores chances de paz, prosperidade e harmonia ambiental". Nesse cenário, será fundamental o envolvimento dos provedores locais de informação com a educação, "em parte para firmar suas marcas junto aos jovens, mas em outra maior parte, para alavancar suas imagens junto à comunidade".
Sucesso é o maior inimigo - Negroponte fala também sobre os novos padrões sociais e de valores éticos. Deve haver censura na Internet ? Não: controle é um artefato do centralismo, que pode ser considerado um dinossauro. A censura na Net só poderia ocorrer em áreas periféricas, e não na rede como um todo. Isso significa que cada receptor deve tomar suas decisões, ainda que difíceis. Caso exista algum paternalismo, ele deve vir dos lares e não do Estado".
E a privacidade, como pode ser preservada ? "A privacidade já é mais complicada, porque todos a desejamos no contexto, mas ninguém cuida de sua privacidade até que a percamos. Se sou atropelado por um carro, quero que a ambulância saiba tudo sobre minhas condições de saúde e mesmo assim, não quero que meu histórico médico se torne público. Nesse sentido, privacidade é como saúde, não se cuida até que se perde.
Ao final da entrevista, Nicholas Negroponte resume suas idéias nessa frase: "A grande mudança ocorrida com a Internet é a nossa disposição em entender e acreditar na própria mudança". Para ele, a rede mundial "é uma nova forma de pensar. De repente, no mundo da Internet, o pequeno pode ficar grande, o pobre virar rico, aqueles que não têm acesso passam a tê-lo " No mundo dos negócios, diz ele, algumas propriedades são consideradas como resultado de uma acumulação de saberes. Em geral, a empresa orgulha-se de ser "fundada em 18XX". Hoje, "tais ativos são vistos apenas como garantias. Pior, as empresas que perceberam isso por última são as que tiveram mais sucesso. No mundo digital, sucesso é o seu maior inimigo".


