São Paulo, 16 (AE) - Os candidatos a prefeito, vice-prefeito e vereador têm uma grande aliada nas eleições municipais de outubro: a Internet. A maior vantagem é que, diferentemente das outras mídias, a rede de computadores não sofre restrições legais. "Não há nenhuma norma que limite o seu uso; é um território livre", afirma o diretor-tesoureiro da Associação Brasileira de Informática e Telecomunicações (ABDI), Manoel Antonio dos Santos. "Será um instrumento de propaganda fenomenal."
Um projeto de lei de autoria do deputado Nelson Proença (PMDB-RS), que tramita no Congresso, enquadra a Internet nas regras válidas para rádio, televisão, jornal e revista. Mas mesmo que seja aprovada em todas as instâncias, a lei não poderá vigorar este ano, já que mudanças na Constituição Eleitoral deveriam ter sido feitas até outubro do ano passado. Ou seja, graças à lacuna, os candidatos podem usar sem limites essa mídia: por meio de sites pessoais e das legendas, pela publicidade paga (que chega nas telas em forma de banners), pelo bombardeio de mensagens nos e-mails do eleitorado ou até pela propagação de idéias nas salas de chat.
O projeto ainda será analisado pela Comissão de Justiça da Câmara. Além de discriminar o conteúdo que, direta ou indiretamente, tenha fins eleitorais, a lei pretende resguardar os usuários da propaganda que chega via correio eletrônico. Um dos dispositivos determina que as mensagens publicitárias não solicitadas informem, de forma clara, o procedimento para que o dono do e-mail exclua seu nome da lista de destinatários do candidato. Após 72 horas do pedido de exclusão, o responsável pelo envio fica sujeito a multa, que tem valor dobrado a cada ocorrência.
Como a Internet está fora da Lei Eleitoral, os candidatos podem iniciar sua campanha na rede desde já, pois não precisam seguir prazos legais. O mesmo não ocorre com as outras mídias, que podem ser veículos de propaganda eleitoral somente a partir de 6 de julho. Mesmo assim, sob certas condições, como a de abrir espaço para todos os candidatos e, principalmente, a de ter as veiculações suspensas em 28 de setembro, antes das eleições de primeiro turno, em 1º de outubro.
Tradição - Grande parte dos pré-candidatos mantêm sites na rede, mas prometem intensificar o uso dessa mídia depois de oficializadas as candidaturas. Alguns têm conteúdos ultrapassados, como o da deputada Luiza Erundina - pré-candidata a prefeita de São Paulo pelo PSB - , que traz propagandas da sua última campanha para vaga na Câmara dos Deputados. "Depois de confirmada a sua candidatura, haverá um site exclusivo para essa eleição", garante o assessor Samir Santos.
Os sites de políticos e partidos trazem, no geral, biografias, dados históricos, discursos e informes, que costumam ser sempre atualizados. Nenhum deles tem hoje o formato que será usado durante a campanha. A home page do ex-presidente Fernando Collor (www.collor.com.br), possível candidato à Prefeitura de São Paulo, terá uma versão direcionada à próxima campanha (www.collor2000.com.br), que já está sendo executada.
Curiosamente, o site do PSDB de São Paulo (www.psdb-sp.org.br) assume a indefinição quanto ao futuro candidato da legenda à Prefeitura. No link Manual de Campanha 2000, acrescentada à home page oficial, já são divulgadas as metas do partido em vários campos - segurança, emprego, saúde habitação, saneamento - sem que seja citado o nome do virtual candidato.
O gerente de produtos da Ibest (empresa que premia as melhores home pages), Bruno Parodi, acredita que a maioria dos sites políticos apresenta uma qualidade baixa, tanto no conteúdo como no design. "São usados com uma função meramente ilustrativa." As exceções são os que representam órgãos governamentais - geralmente, mais bem cuidados.
Mesmo com uma abrangência menor, se comparada à rádio ou à televisão, a Internet pode ser uma arma poderosa na conquista de votos. Na quinta pesquisa Internet Brasil, realizada pelo Ibope em dezembro do ano passado nas nove maiores capitais do País, o porcentual de usuários de Internet acima dos 16 anos (quando o voto torna-se facultativo) foi de 9%. No primeiro semestre de 1999, a empresa Marplan levantou, também nas nove capitais, uma mostra de 25.276.000 pessoas de todas as classes sociais, acima dos 18 anos. Desses, 2.834.000 eram usuários da Internet, o que representa 11% da mostra global.
O vice-presidente da By The Web - agência que desenvolve campanhas exclusivas para a Internet -, Rogério Bauleo, aponta várias vantagens da rede. "A rede possibilita que o político mantenha um projeto de transparência", avalia ele, aproveitando para promover sua maior parceira. "É a única mídia que consegue fazer isso com tanta eficiência."
Para fazer com que as pessoas consultem as suas home pages, os políticos podem lançar mão de meios tradicionais - como santinhos, programa eleitoral gratuito - ou investir numa campanha on-line. Segundo Bauleo, um banner na página de prefeituras do site de busca Cadê, por exemplo, custa R$ 50,00 por mil acessos feitos. Clicando na propaganda, o usuário abre ainda a home page do candidato. "É uma mídia que tem custo-benefício muito alto", assegura.
Um recurso ainda pouco explorado nas páginas oficiais da Internet é a interatividade. O site da pré-candidata do PT ao governo de São Paulo, Marta Suplicy (www.martasuplicy.org.br), é um dos poucos que promove o diálogo entre os usuários. Pelo preenchimento de um cadastro, os visitantes do site podem deixar notas ou outras contribuições na página. Não há censura, apenas a recomendação para que se siga um código de ética.
"Até agora, não houve agressão", conta a assessora da ex-deputada, Tereza Augusti. O site não é ainda o oficial da campanha. Novos conteúdos serão acrescentados, mas o mecanismo de troca de idéias entre os usuários será mantido. O PV do Rio de Janeiro foi mais longe e criou o "cybervereador", uma espécie de câmara de vereadores virtual. Pelo site www.cidadeinteligente.rj.net, as pessoas podem trocar informações com todos os vereadores do partido.
O presidente da Associação de Mídia Interativa (AMI), Antonio Rosa, estima que a Internet atraia investimento de R$ 160 milhões em publicidade este ano. Ele não crê que a política venha a ter grande participação nisso. "Já vivemos uma eleição com a presença da rede há dois anos, e procuramos seguir a mesma conduta das outras mídias." Esse esforço, porém, não passa de um ato voluntário, adequado ao presidente da AMI, mas dificilmente seguido pelos que caçam votos.

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