Internação depende de papel assinado
Marcos NegriniDilemaMédico dá ponto em paciente; profissionais de Saúde acompanham diariamente o pesadelo dos doentes O Procon de Maringá recebe uma média de quatro reclamações mensais de pessoas que são obrigadas a assinar documentos em branco para poder internar seus familiares em leitos de UTI de hospitais particulares de Maringá. O coordenador do Procon, Daniel Campos, diz que nenhuma dessas reclamações se transforma em ações criminais porque os reclamantes ficam com medo. Medo de serem contestados em cartório e na Justiça pelos hospitais, pois assinaram um documento em branco. E por isso não levam as reclamações adiante, afirma Campos.
No dia 28 de julho do ano passado, o gerente da Fazenda Bouganville, a 10 quilômetros de Maringá, Fernando Ferreira Vidal, levou um de seus funcionários, o trabalhador rural Paulo Praste, 22 anos, ao HU. Praste havia sido atropelado na rodovia PR-317, quando voltava de Iguaraçu (34 quilômetros ao norte de Maringá) de bicicleta. Os plantonistas do HU não conseguiram vaga na Central de Leitos. Praste tinha traumatismo craniano e precisa com urgência de uma neurocirurgia.
Percebendo que a vaga não apareceria, Fernando foi aos hospitais Santa Rita e Paraná (que na época ainda era credenciado ao SUS) tentar um leito de UTI por conta própria. Os dois hospitais consentiram em receber Praste, desde que Vidal assinasse um cheque de R$ 5 mil.
O proprietário do Santa Rita, Hiram Castilho Moura, confirmaria o fato à Folha no dia seguinte. Vidal não tinha o dinheiro e Praste morreu nos corredores do HU. Foi a quarta vítima do sistema em 96 por falta de atendimento especialzado em Maringá. Naquele ano, ainda morreria mais um paciente, pelo mesmo motivo.
Vidal deu entrada em um Termo de Declaração junto ao Ministério Público do Fórum de Maringá contando todos os fatos que envolveram a morte de Paulo, inclusive a cobrança feita pelos hospitais Santa Rita e Paraná. Até hoje não obteve resposta.
A mãe de Paulo, Maria Galdina, 46 anos, chora a morte do filho até hoje. Perdi meu filho porque sou pobre. Se tivesse os R$ 5 mil ele estaria vivo. Lembro que ele e o pai, Rafael, trabalhavam juntos aqui na fazenda. Como era bom aquele tempo. Nunca liguei muito para essa história de pobreza. O importante é que a gente era feliz. Não faltava nem comida nem amor. Hoje falta ele. Ezequiel Mendes Pereira, que mora na Avenida Morangueira, em Maringá, dirigia o Monza que atropelou Praste. Ele responde a processo criminal em liberdade.





