Interlocutores de FH consideram inevitável novo confronto com ACM
Interlocutores de FH consideram inevitável novo confronto com ACM18/Mar, 19:58 Por Tânia Monteiro e Carmen Kozak Brasília, 18 (AE) - A oposição ao governo Fernando Henrique Cardoso chama-se hoje Antonio Carlos Magalhães. Presidente do Congresso e influente dirigente do PFL, o senador baiano tem protagonizado sistematicamente os embates que mais causam desgastes ao Palácio do Planalto. Desconfiados, Fernando Henrique e os principais interlocutores dele não conseguem prever os objetivos do senador e muito menos o desfecho dessa artilharia aliada. Consideram, desde já, inevitável novo confronto, quando for anunciado o novo mínimo, de 150 reais, 27 reais a menos do que o valor exigido pelo senador, que roubou a tradicional bandeira do PT. "Onde está Lula (Luiz Inácio Lula da Silva, presidente de honra do PT)? Onde está Ciro Gomes (ex-ministro da Fazenda)? Onde está Brizola (Leonel Brizola, presidente nacional do PDT)?", indagam auxiliares do presidente, referindo-se aos tradicionais líderes da oposição a Fernando Henrique. Nos últimos meses, os ataques que abalaram o governo vieram de um mesmo aliado: ACM, deixando a oposição sem discurso. O comportamento de ACM não desagrada apenas ao presidente. Setores do PFL que trabalham pela preservação do status do partido na aliança começam a manifestar preocupação. O receio de pefelistas que buscam abrigo nas alas pernambucanas e catarinenses - comandadas pelo vice-presidente Marco Maciel e pelo presidente nacional do partido, senador Jorge Bornhausen (SC) - é que o PMDB se aproveite ainda mais da situação e ocupe espaços antes reservados ao PFL, especialmente nas costuras para a eleição presidencial de 2002. Para colaboradores próximos do presidente, os ataques de ACM a Fernando Henrique provocaram enormes estragos na popularidade do governo. Agora, o episódio do reajuste do mínimo é considerado "crítico", uma vez que todos não têm a menor idéia de até aonde o senador está disposto "a puxar a corda". "Se a tração for muito forte, Fernando Henrique pode deixar que ela arrebente", comentou um assessor do presidente. "Vai chegar um momento em que o presidente vai dizer que quem quiser que fique ao seu lado, quem não quiser..." "O senador Antonio Carlos quer ganhar prestígio à custa do desgaste de Fernando Henrique", acusou outro interlocutor, para quem a defesa do mínimo de US$ 100 se transformou em "questão política". Esse mesmo auxiliar comentou que, no Palácio do Planalto, o grande mistério é o objetivo de ACM, uma vez que não acreditam que ele esteja pavimentando a candidatura à Presidência. Fernando Henrique é cauteloso e ainda afaga o senador porque o considera um aliado de primeira hora e reconhece o empenho dele em apressar a tramitação dos projetos de interesse do governo e, depois, aprová-los com tranquilidade, no Senado. Prova disso é que, no meio dessa disputa pelo valor do mínimo e na guerra fiscal entre São Paulo e Bahia, ACM conduziu de maneira mais do que satisfatória a aprovação da emenda que institui a Desvinculação de Receitas da União (DRU), ressaltou um influente tucano. O presidente precisa do apoio de ACM e da ala baiana do PFL, mas não está disposto a pôr em risco, por exemplo, a estabilidade da moeda para atender a um "capricho político", que é como se está considerando a "insistência absurda" num salário mínimo equivalente a US$ 100. "Não vamos fazer graça, demagogia, ou passar cheque sem fundo", disse um ministro, que insiste em dizer que não existem recursos no Orçamento para o valor exigido pelo PFL. O presidente sabe que a situação é delicada e, por isso, desenhou uma estratégia cautelosa com a qual pretende fazer com que ACM perceba que ele e o grupo também têm a perder nessa guerra. Um auxiliar de Fernando Henrique compara a situação do presidente do Senado à de quem está "atravessando o rubicão". Atravessar o rubicão, segundo o dicionário Aurélio, é "tomar uma decisão temerária, enfrentando as consequências". Na quinta-feira (16), durante solenidade do PFL em homenagem ao ex-líder do governo na Câmara Luís Eduardo Magalhães 9PFL-BA), filho de ACM, que morreu há dois anos, mesmo ensaiando uma espécie de armistício, tanto Fernando Henrique como o presidente do Senado não evitaram provocações mútuas, cada um tentando fazer valer as próprias posições. Fernando Henrique, que, no primeiro momento, preferiu se calar, na cerimônia, respondeu ao senador. "Às vezes, as palavras saem mais depressa do que o coração gostaria e muito mais ainda do que a razão permitiria e é preciso dar um espaço para que haja voltas", afirmou o presidente. Depois da solenidade, ao ser indagado sobre as críticas ao que qualificou de "paulistério" - um ministério dominado por paulistas -, ACM não deixou passar em branco a observação do presidente: "As minhas (palavras) são da consciência; o paulistério foi consciência."





