São Paulo, 10 (AE) - O interior de São Paulo está transformando-se num novo Eldorado para profissionais qualificados que conseguem aliar empregos bem remunerados à qualidade de vida. A descentralização industrial e o perfil tecnológico avançado das empresas que se instalam no interior são dois dos principais fatores que explicam o grande crescimento da renda média per capita, que ocorre simultaneamente ao aumento do desemprego e do número de favelas.
"O interior vem atraindo a maioria dos investimentos industriais do estado, sobretudo empresas de alta tecnologia que absorvem pouca mão-de-obra, porém de alta qualificação e, portanto, altos salários", diz o economista Carlos Américo Pacheco, secretário-executivo do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) e autor de tese sobre a desconcentração econômica no estado.
Essa seria, segundo ele, uma das principais explicações para a renda familiar média real (descontada a inflação) ter crescido 24% no interior entre 1994 e 1998, enquanto o desemprego passou de 12,1% para 15,7%, conforme Pesquisa de Condições de Vida (PCV) da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade).
Investimentos - Do total de investimentos previstos para o estado entre 1995 e o ano 2000, 88% dirigem-se ao interior. "Está-se aprofundando uma tendência iniciada nos anos 70", diz Paulo Jannuzzi, demógrafo e analista do Seade responsável pela pesquisa.
Ele lembra que, entre 1980 e 1995, a participação das fábricas do interior no produto industrial do estado subiu de 36% para 48%, ganhando espaço da região metropolitana.
Nos últimos anos, essa tendência acentuou-se por um miniciclo de investimentos em áreas de alta tecnologia como telecomunicações e informática - concentrados principalmente na região de Campinas - e alguns setores da eletroeletrônica.
O interior recebeu ainda plantas industriais automotivas robotizadas da Toyota e da Honda e investimentos na indústria química fina e aeronáutica.
Procurando reduzir custos com transporte, a indústria de bebidas foi outro importante setor que se interiorizou nos últimos anos. O mesmo ocorreu com uma série de indústrias que consomem muita eletricidade. Para reduzir custos, passaram a operar com gás natural e instalaram-se no Vale do Paraíba, onde passa o gasoduto que vem da Bacia de Campos.
"A agroindústria do interior também reciclou-se tecnologicamente, o que resultou em redução de empregos e aumento de salários", diz Jannuzzi. Para ele, esses investimentos explicariam o aumento de 8% nos rendimentos familiares provenientes do trabalho, a despeito do crescimento do desemprego.
"O interior está atraindo mão-de-obra extremamente qualificada", diz Pacheco. Essa análise é confirmada pela elevação média de anos de estudo da população, que passou de 6,8 para 7,1 anos.
Outro fator essencial para o crescimento da renda média no interior entre 1994 e 1998 foi o aumento de 38% em pensões e aposentadorias, que passaram a pesar mais na composição da renda familiar: na média, aumentou o contingente de aposentados e reduziu-se o número de dependentes nas famílias, pelo envelhecimento da população.
Jannuzzi destaca ainda que no interior do estado foi menor a repercussão da atual crise, pela grande diversificação econômica da região. Além disso, ele explica que os dados da PCV relativos ao crescimento da renda não refletem a realidade do conjunto do interior mas sim, justamente, das cidades de maior dinamismo econômico, porque a coleta de dados restringiu-se aos municípios com mais de 50 mil habitantes.
A concentração de investimentos de ponta no interior, provocou a interiorização de um padrão de consumo. Com isso, mais domicílios hoje têm TV em cores (94% em 1998, contra 81% em 1994), videocassete (54% contra 34%), freezer (33% contra 19%) e máquina de lavar roupa (82% a 64%). A melhoria na qualidade de vida do interior observa-se também pela redução do número de crianças e adolescentes no mercado de trabalho, resultado também de um mercado que exige níveis maiores de escolarização.
Padrão - A elevação do padrão de consumo está tendo também consequências negativas sobre a moradia, com o aumento do número de pessoas que vivem em favelas e cortiços: "Com a proliferação de shopping-centers e luxuosos condomínios fechados no interior, os aluguéis acabaram subindo muito acima da inflação", explica o arquiteto e técnico do Seade, Aurílio Caiado.
Esse fato explicaria dois dados aparentemente contraditórios da pesquisa: entre 1994 e 1998, cresceram no interior do Estado tanto o porcentual de famílias que vivem em favelas (de 4,3% para 6,7%), como o de famílias que moram em casa própria (de 63,1% para 68%).
Caiado destaca outro elemento que vem contribuindo para a interiorização de certos padrões de consumo da capital: a migração pendular. Ou seja, o aumento constante do número de famílias que, em busca de melhor qualidade de vida, mudam-se para o interior, mas continuam trabalhando na Grande São Paulo. "A proliferação de condomínios fechados em regiões como Itu, Indaiatuba, Valinhos e Vinhedo tem provocado um grande aumento da renda, dos aluguéis e das favelas nessas regiões; estamos interiorizando um padrão de urbanização."

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