Díli, 24 (AE-AP) - A Força Internacional das Nações Unidas para Timor Leste (Interfet) lançou hoje (24) uma operação pente-fino em Díli, a capital timorense, apreendeu armas e munições e deteve vários membros das milícias pró-Indonésia, entre eles um de seus líderes, Caitano da Silva, o mais importante líder da milícia Aitarak. Ele foi capturado em um hotel da cidade, usado como quartel-general do grupo.
Com o apoio de helicópteros Blackhawk e tanques, soldados fortemente armados da Interfet vasculharam praticamente todas as ruas da capital. Veículos blindados bloquearam as saídas de Díli
enquanto os helicópteros sobrevoavam a área e soldados batiam de porta em porta em busca de milicianos.
O chefe das forças indonésias em Timor Leste, general Kiki Syahanakri, admitiu hoje que o Exército não é capaz de controlar as milícias depois que soldados sob seu comando roubaram dois caminhões com ajuda humanitária para refugiados. O governo indonésio anunciou hoje que entregará o controle de Timor Leste à Interfet na segunda-feira, mas acrescentou que manterá cerca de 4,5 mil de seus homens no território por mais um mês.
A transferência de poder vai pôr fim a quase um quarto de século de repressão na ex-colônia portuguesa, invadida pela Indonésia em 1975. Segundo um porta-voz da missão, nas últimas 24 horas as tropas indonésias prosseguiam sua retirada de Timor Leste. Antes de partir, soldados indonésios atearam fogo hoje a uma rádio local e ao quartel onde estavam alojados.
Pelo menos 150 partidários da independência comemoraram a saída dos soldados indonésios e mais tarde percorreram triunfalmente o centro de Díli com bandeiras e cartazes com a foto do líder da resistência Xanana Gusmão, que na próxima semana viajará a Nova York para um encontro com o secretário-geral da ONU, Kofi Annan.
O general australiano Peter Cosgrove, comandante da Interfet decidiu hoje acelerar o envio de tropas a Timor Leste e adiar o de pessoal de apoio, num claro sinal de que a missão está se tornando mais perigosa que o inicialmente esperado. A decisão foi tomada após vários incidentes nos quais soldados indonésios estiveram envolvidos e pelos rumores de que as milícias se estão reunindo na fronteira com Timor Oeste para preparar um ataque contra a força de paz. Atualmente há cerca de 3 mil soldados em Timor Leste - dos quais 2,5 mil australianos - e a missão poderá contar com mais de 7 mil homens de pelo menos 10 países.
Funcionários da ONU realizaram hoje uma inspeção aérea sobre várias cidades timorenses, vazias e totalmente queimadas, que oferecem a confirmação de que uma campanha de destruição foi conduzida no território. Ativistas alegam que as forças pró-Jacarta forçaram os leste-timorenses a refugiar-se no outro lado da ilha, em Timor Oeste, deixando apenas uma reduzida área para eles governarem após a independência. A Anistia Internacional e o grupo americano humanitário Carter Center denunciaram hoje que a campanha de terror - iniciada depois que leste-timorenses votaram em massa a favor da independência do território - não se limitou a Timor Leste e Oeste. Segundo eles, vários refugiados timorenses foram conduzidos a outras partes da Indonésia. Em um relatório, a Anistia denunciou que pelo menos 35 timorenses foram mortos no dia 11. Eles teriam sido jogados ao mar quando estavam sendo levados de navio de Díli a Kupang, no oeste.
Uma sessão especial da Comissão da ONU para Direitos Humanos será retomada na segunda-feira depois que países asiáticos e ocidentais não chegaram a um acordo hoje sobre o envio de uma equipe a Timor Leste para investigar as denúncias sobre crimes contra a humanidade, o que poderia resultar na abertura de um tribunal especial de guerra.

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