Interesses humanitários e econômicos em debate
Membro do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (Ippri) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), a pesquisadora Suzeley Khalis Mathias diz que a ausência de uma política de imigração no País reflete diretamente nas relações sociais e econômicas dos Estados. "O maior impacto ainda é absorvido pelas organizações de atendimento à população imigrante e carente - como as Pastorais do Imigrante. Porém, deve-se buscar uma política federal para o assunto, pois o tema pertence a esta alçada. Por agora, o que se pode ver é o aumento dessa população em zonas de concentração urbana disputando moradia e assistência social com os nacionais brasileiros."
Segundo ela, o Brasil nunca teve uma política pública para os imigrantes pensada para tanto e é preciso dar enfoque ao assunto com vistas à formulação de uma política de longo prazo que atenda aos interesses humanitários e também econômicos do Brasil. "As políticas nesse aspecto, e aqui me lembro daquelas do final do século XIX e início do XX, foram todas no sentido de buscar mão de obra barata e branqueadora de nossa população. De toda forma, mesmo naquela época, a legislação não foi revolucionária. As condições deveriam ser estabelecidas em outras bases, que excluíssem a criação de guetos e o empobrecimento da população", acrescenta.
Sobre a situação específica dos haitianos, a professora de relações internacionais da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap) Vanessa Matijascic explica que eles vieram, num primeiro momento, de forma mais ordenada, apesar de irregular. "Houve um fluxo muito grande ocasionado pela presença brasileira no país e as ações de cooperação após o terremoto. Com as portas abertas - anunciadas pelo então ministro das Relações Exteriores - começaram a chegar. Estes conseguiram legalizar rapidamente sua situação no Brasil motivando a vinda de outros tantos."
Para ela, contudo, a entrada, ainda que desenfreada, de imigrantes ou refugiados não deve ser restringida. "Mas este processo deve contemplar algumas condições e ser realizado de forma estruturada, a fim de que essas pessoas saiam do país de origem com o processo já em andamento. Dessa forma, conseguiremos fazer com que sejam absorvidas pela economia formal, e não deixá-las numa situação precária", completa a pesquisadora. (M.T.)





