Porto Alegre, 14 (AE) - O professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e especialista em política externa Ricardo Seitenfus disse hoje que o intercâmbio comercial dentro do Mercosul "tende a diminuir" daqui para a frente, tanto em volumes quanto em valores. Segundo ele, o bloco chegou ao nível máximo da "elasticidade" do comércio intra-regional .A partir de agora, afirmou, a atuação dos países parceiros deve ser orientada no sentido original do mercado comum, que é o de constituir uma "plataforma" para o aumento da competitividade internacional conjunta e o consequente aumento das suas exportações.
"É preciso uma estratégia comum de ocupação do mercado externo", aconselhou o professor, durante a conferência Os Desafios Externos do Mercosul, realizada na 51.ª Reunião Anual da SBPC, no câmpus da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). De acordo com ele, contudo, até agora os países sócios têm competido entre si no mercado internacional, sobretudo no setor de produtos agrícolas.
Segundo Seitenfus, "a Argentina deve repensar sua dependência extremada do mercado brasileiro". Ele fez a afirmação ao responder ao depoimento do diretor do Centro Argentino-Brasileiro de Biotecnologia daquele país, Augusto Garcia, de que os argentinos estão enfrentando "consequências severas da desvalorização do real no início do ano".
Para o professor, o Mercosul vive ainda o "dilema de alargar ou aprofundar" o bloco econômico neste momento. Ele não considera impossível conciliar a ampliação do número de sócios com o reforço simultâneo da integração, mas entende que essa articulação de objetivos exige a superação de uma ampla relação de desafios.
Instabilidade - A "inserção coletiva mais efetiva" dos países-membros no mercado internacional, afirmou Seitenfus, depende do bom encaminhamento político interno do processo de integração, sem "decisões unilaterais" que contrariam o próprio "espírito" do mercado comum. Esse objetivo, entretanto
é prejudicado pela constante instabilidade econômica na região, que cria crises "episódicas", como a falta de entendimento a respeito do setor automotivo e as cotas estabelecidas esta semana pela Argentina para a importação de produtos têxteis brasileiros.
"Os compromissos devem ser respeitados, interpretados e aplicados de forma comum e não individual, conforme interesses nacionais", afirmou o professor. Essa afinidade, de acordo com ele, deve ser garantida por intermédio de instâncias de poderes institucionalizados e supranacionais para a solução efetiva de controvérsias, como um tribunal para a região, disse.
Desafio - Uma política comum para a atração de investimentos externos é outro desafio a ser superado pelo Mercosul, afirmou Seitenfus. A existência de um mecanismo dessa natureza, segundo ele, impediria a crise provocada pelos incentivos aprovados pelo Congresso brasileiro à instalação da Ford na Bahia, que provocaram protestos imediatos da Argentina. "Infringimos as normas da Organização Mundial do Comércio (OMC) e, mesmo que os argentinos não reclamassem, algum país sócio pediria um pannel (arbitragem), forçando o Brasil a recuar, como já aconteceu em 1995", comentou.
O professor chamou a atenção ainda para o fato de que o Mercosul não está atuando coletivamente para resolver problemas comuns como desemprego, desigualdades sociais e especialmente a dívida externa. "Os países nunca puseram esse tema em suas agendas de discussão, apesar da importância que ele tem para o desenvolvimento socioeconômico da região", comentou.
Unificação - De acordo com ele, o bloco também precisa de posições unificadas nos grandes fóruns internacionais, o que não ocorreu, por exemplo, durante a Guerra do Golfo e os bombardeios à Iugoslávia, liderados pelos Estados Unidos e apoiados pela Argentina. Ele não poupou críticas ao governo brasileiro, que, contrariando a intenção dos seus sócios, assinou um protocolo de aproximação com os países da Comunidade Andina.
Seitenfus classificou também de "singular" o pedido do presidente argentino, Carlos Menem, ao seu colega norte-americano, Bill Clinton, para o ingresso do país como "membro pleno" da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). "O Atlântico que banha a Argentina não é exatamente o norte e não há indicações de problemas de fronteiras que justifiquem a medida", afirmou.

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