Intelectuais petistas cobram posição do partido sobre identidade socialista
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domingo, 09 de abril de 2000
Por Vera Rosa 
São Paulo, 10 (AE) - O socialismo petista está novamente na berlinda. Cinco meses depois do 2.º congresso do PT, que reafirmou no papel a crença no socialismo, intelectuais filiados ao partido cobram uma posição mais explícita sobre o tema. "Não dá para ficarmos no espiritualismo da terceira via", criticou hoje a filósofa Marilena Chauí. A professora lembrou que a definição clássica de socialismo prevê a propriedade coletiva dos meios de produção, enquanto a terceira via abandona a idéia de luta de classes. "Se chegarmos ao poder, o que faremos para encaminhar transformações socialistas?", emendou o filósofo Carlos Nelson Coutinho.
A pergunta ficou no ar. Coutinho não parou aí. "Não devemos renunciar à idéia da revolução", argumentou. Estas e outras cobranças dos intelectuais foram feitas hoje, durante o Seminário Socialismo no Ano 2000, realizado em São Paulo. A palestra faz parte do ciclo de debates Socialismo e Democracia, promovido pelo Instituto Cidadania - uma organização governamental dirigida pelo presidente de honra do PT, Luiz Inácio Lula da Silva. "Não existe, de nossa parte, nenhuma concepção prévia de socialismo nem de como alcançá-lo", disse Lula. Coordenados pelo crítico literário Antonio Candido, os debates sobre socialismo vão até junho. Na lista das discussões, estão economia, instituições políticas, classes sociais e até globalização.
No PT, o conceito de socialismo é um guarda-chuva que abriga todo tipo de opinião. Há até mesmo quem defenda apenas "valores socialistas", como o deputado José Genoíno (PT-SP), que foi guerrilheiro e defensor da luta armada. A Democracia Radical, tendência de Genoíno, prega pontos que também constam do ideário da social-democracia, entre eles a reforma do Estado.
Para Marilena Chauí, o neorrevisionismo batizado de terceira via é "um portentoso processo de despolitização" que abandona e "espiritualiza" o socialismo, deixando-o sem base concreta. Ela admite que, mesmo assim, a social-democracia "exerce fascínio" sobre muitos petistas. No seu diagnóstico, a explicação para esse fato é uma só: "Nunca dissemos nem para nós mesmos o que entendíamos por partido socialista."
Ao ressaltar que não se pode enterrar o conceito histórico do socialismo, nem mesmo depois da queda do Muro de Berlim, das mudanças no capitalismo e do "aggiornamento" da social-democracia, Marilena deixou os dirigentes petistas numa saia-justa. "Dizer que somos pela igualdade, mas não queremos a propriedade coletiva dos meios de produção e distribuição não dá", afirmou. "Por isso o PT evitou, tanto quanto possível, ir até o fundo dessa discussão."
O filósofo baiano Carlos Nelson Coutinho concordou com Marilena. Destacou, porém, a crise programática, com "falta de propostas exequíveis", do comunismo histórico e da social-democracia. Mais: disse ficar "desconfortável" quando a plataforma de Lula, nas campanhas presidenciais, leva o carimbo de democrática e popular. "Nosso programa tem de ser também socialista", insistiu.


