Integrismo perde terreno em países muçulmanos Do correspondente Gilles Lapouge
Paris, 24 (AE) - Sinais deixavam pressentir, havia alguns meses, certos problemas do islamismo, mas esses sinais eram furtivos, indecifráveis, obscuros ou contraditórios. Hoje, eles ganharam mais legibilidade, pois se multiplicam e dizem respeito não a esse ou àquele país, mas a uma grande parte do "arco islâmico" que contaminou, desde a Revolução Islâmica de 1979 no Irã, simultaneamente a ásia e a áfrica. É verdade que, em cada um dos países afetados por ela, a crise do islamismo obedece a protocolos locais e tem origens específicas. Isso não faz diferença: o fato de que no mesmo momento a Argélia, o Iêmen ou o Irã contestam o jugo integrista é prova da existência de um movimento global, ainda que as causas não sejam as mesmas.
Na Argélia, a virada é espetacular: a guerra que opõe os fanáticos religiosos à sociedade matou 100.000 pessoas. O novo presidente eleito, Abdelaziz Bouteflika, obteve rapidamente um "adeus às armas" por parte da guerrilha da Frente Islâmica de Salvação (FIS), anistiou 2.300 acusados e mostrou que os muçulmanos sensatos podiam reintegrar o jogo político.
No Irã, os conservadores (liderados por Ali Khamenei) reprimiram ferozmente os protestos públicos dos reformistas, favoráveis ao presidente moderado Mohammad Khatami, mas sua vitória é apenas ilusória. Os conservadores ganharam a batalha, mas provavelmente perderam a guerra. Não somente no Irã, mas em todo o Oriente Médio que, desde o aiatolá Khomeini, deixava-se levar por Teerã.
Na Turquia, o partido islâmico Refah sofreu uma derrota eleitoral severa em abril. Esse recuo beneficiou a extrema direita, que também não é grande coisa, mas não é islâmica.
O Sudão, com todo seu delírio integrista, assiste também ao declínio de seus "irmãos muçulmanos". O Egito debelou energicamente o terrorismo anticristão e antiestrangeiro. No Iêmen, o islamismo está em decadência.
Na Rússia, os Estados muçulmanos do Cáucaso rejeitaram o islamismo e permanecem ligados a Moscou. Enfim, nos Bálcãs, o auxílio do Ocidente ao Kosovo muçulmano reforça nessa região os valores democráticos. A Indonésia, o maior país muçulmano do planeta, após um longo ciclo de tirania, orienta-se no sentido de um retorno à via democrática, com aceitação da "laicidade".
Nos países do Golfo Pérsico, amigos do Ocidente, mas rigorosamente muçulmanos, desenha-se uma mudança: as mulheres kuwaitianas conquistam liberdades e o novo governo proclama-se "liberal". O Emir do Catar exorta a eleição de um Parlamento e uma Constituição justa.
E mudanças devem também ocorrer nos países do Oriente Médio, não por causa dos governos árabes, mas por causa do governo israelense: a mecânica de paz que o novo primeiro-ministro parece querer instaurar deve fortificar as forças democráticas e antiislâmicas em toda a zona árabe. Já o Hizbollah libanês, ainda que continue a mostrar os dentes, está marginalizado pela aliança que se forma entre o poder sírio, os cristãos libaneses e os xiitas moderados da Amal, aliança que representa o prelúdio de uma paz entre a Síria e Israel. Assim, a Síria, até então o aliado indefectível do Irã, está passando para o campo da paz. O Irã extremista, encontra-se cada vez mais isolado na região da qual era antes o farol.
Mais complicada é a situação no Extremo Oriente: no Afeganistão, os talebans (auxiliados pela ação comum dos Estados Unidos e do Paquistão) não conseguem consolidar sua vitória. Seu islamismo extremamente cruel, sobretudo contra as mulheres, é de dar nojo. O líder da resistência contra os talebans, o comandante Massud, que dávamos por derrotado, prossegue com a guerrilha e inflama todo o país.
É verdade que os talebans continuam recebendo ajuda do Paquistão que, apesar de sua bomba atômica, está em crise. Mas o Paquistão conserva seu poder de molestar e mostrou isso apoiando quase que abertamente os separatistas muçulmanos da Caxemira indiana.
Durante alguns dias, chegou-se a temer que uma nova guerra estourasse entre a Índia e o Paquistão. Mas tudo se acalmou. Como explicar esse apaziguamento? Sem a menor dúvida pela ação dos Estados Unidos, que intimaram seu aliado paquistanês a pôr fim a suas provocações contra a Índia. Esse comportamento mostra que a diplomacia de Washington está levando, em toda a ásia e no mundo árabe, a uma revisão radical.
Os EUA sempre ajudaram os movimentos nacionalistas e islâmicos da ásia, com a finalidade (explicável no tempo da guerra fria) de apoiar todas as forças anticomunistas. Foi por isso que os Estados Unidos apoiaram o estúpido Taleban. Tendo compreendido seu próprio erro anos mais tarde, os EUA se arrependeram quando viram sangrentas ações terroristas contra suas embaixadas cometidas por um dos protegidos do Taleban, o milionário saudita Osama Bin Laden.
Com relação à Índia, o erro de julgamento foi igualmente grosseiro. No tempo da guerra fria, a Índia estava em bons termos com a União Soviética. Portanto, os EUA tomaram partido contra a Índia e apoiaram o Paquistão islâmico, apesar da corrupção e da imoralidade do regime paquistanês. Hoje, a questão da Caxemira entre os rebeldes muçulmanos, apoiados pelo Paquistão, e a Índia deu a Washington a oportunidade de recuperar a razão. Sem que uma confissão jamais tivesse sido feita, o conflito da Caxemira favoreceu uma verdadeira "reviravolta na aliança" nessa região: os EUA afastam-se do Paquistão e dispõem-se a fazer da Índia sua verdadeira aliança asiática.
Sem dúvida, a partida está longe de estar ganha. Mas nessa recusa do islamismo obscurantista e brutal são as mulheres que incitaram a resistência e lideraram as grandes manifestações. Nos países islâmicos como no resto do mundo, as mulheres possuem uma obstinação, uma coragem, um desejo de liberdade que os homens, muitas vezes, poderiam invejar. Foi um dos maiores (e um dos mais vergonhosos) erros dos muçulmanos mexer com as mulheres. No fim, felizmente, as mulheres sempre ganham.





