Bonn, Alemanha, 14 (AE) - Esta é a íntegra do trecho da entrevista em que o presidente Fernando Henrique Cardoso falou a respeito da reportagem da revista "Veja", na qual o dono do Banco Marka, Salvatore Cacciola, é associado a suposto pagamento de propina a funcionários do Banco Central (BC), em troca de favorecimento à instituição dele:
"Eu determinei ao ministro da Justiça (Renan Calheiros)
quando li a reportagem da Veja, que chamasse o presidente (do Marka), a pessoa do banco Marka e que, se fosse o caso, o prendesse, para que ele desse a declaração, porque não se pode ficar levianamente falando que ouvi isso ou aquilo: ou dá o nome - então, sim - e, se for realmente (verdade), se vai processar, se prenda, se faça o que for com o funcionário, porque a lei é para todos. Mas, agora, simplesmente, pôr o rumor e depois sumir
ah! isso não. Acho que nesse caso, prende, prende para esclarecer, porque eu cansei desse tipo de coisa no Brasil, de impunidade, de impunidade também para os (autores dos) rumores. Até hoje eu protesto contra o fato de não se pôr na cadeia os que fizeram o dossiê Cayman: foi divulgado amplamente e é uma falsidade, uma chantagem contra ministros e o presidente da República. Isso não pode ficar assim. Do mesmo modo, não pode ficar um disse-me-disse. Havendo provas, se leva aos tribunais e se prende, mas tem que provar, tem que mostrar."
O presidente Fernando Henrique falou também, na entrevista que concedeu na capital alemã, sobre a notícia de que Cacciola operava no Brasil também como investidor estrangeiro e teria enviado ao Exterior R$ 17 milhões no mesmo dia da quebra do Marka. Disse o presidente:
"Também tem que ver as condições em que isso se deu. Eu dei instruções desde o início ao ministro (Pedro) Malan (da Fazenda) e eu nem sabia da existência desse banco, o Banco Marka. Dei instruções ao ministro Malan - desnecessárias, porque o ministro tem consciência -, de verificar o que houve e transmitir isso à sociedade. A obrigação do Banco Central é deixar tudo transparente."

A uma pergunta de um repórter sobre eventual relação entre a demissão do economista Francisco Lopes da presidência do BC e o caso do Banco Marka, Fernando Henrique declarou:
"Deixa eu esclarecer isso de uma vez por todas. Já ouvi rumores. A mim nada jamais foi dito que implicasse o doutor Chico Lopes no que quer que fosse. Eu não tenho elementos, nem nos contatos que tive com ele nem por terceiros, que pusesse sob suspeita, nem de longe, sobre o doutor Chico Lopes e sua capacidade intelectual. O doutor Chico Lopes deixou de ser o presidente do Banco Central não porque sequer soubesse que tivesse havido qualquer coisa com o banco tal ou qual. Eu não sabia. Naquele momento, achei que precisávamos operar mais rápido. Foi uma questão operacional, como eu disse. Isso não diminuiu nunca a apreciação que eu tenho pelo doutor Chico Lopes como intelectual ou funcionário. Eu tomei a decisão (de demitir Lopes), junto com o ministro Malan. Naquela ocasião, os dois apresentaram juntos o pedido de demissão em razão do que ocorreu no dia 29 de janeiro. Foi uma corrida, um pânico forte, e nessa hora o governo tem de agir com mais firmeza. Então, foi essa a razão. Não tem nada a ver com quaisquer informações relativas a decisões que pudessem envolver o doutor Chico Lopes."

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