Íntegra do pronunciamento de FHC
Brasília, 12 (AE) - Esta é a íntegra do pronunciamento do presidente Fernando Henrique Cardoso: "Peço a vocês um pouco de atenção para uma conversa franca sobre o que está acontecendo em nosso País. Não pretendo dizer que está tudo bem, tudo resolvido, mas explicar, com toda clareza, o que tem se passado, o que o governo tem feito e para onde está caminhando este grande País. Hoje, 12 de abril, estamos completando exatamente três meses da mais importante luta que o governo e o País já enfrentaram para defender a estabilidade e preservar o Real. O Real é o marco divisório da nossa história. É o fim de um tempo em que tínhamos uma inflação descontrolada, que derretia dinheiro e salário no bolso do povo, uma inflação que devastava nossa economia, penalizando os mais pobres. Sempre garanti ao povo brasileiro que o meu governo não mediria esforços para proteger essa grande conquista. E este continua sendo o meu principal compromisso. Digo isso porque nos últimos três meses o real tem enfrentado a sua maior provação. Em janeiro ele sofreu o mais intenso ataque especulativo da sua história. Para que não acontecesse o pior, tivemos que aumentar os juros drasticamente. Mas como você pode acompanhar pela imprensa, eles já estão caindo e vão cair ainda mais. O dólar, que chegou a ser cotado a mais de R$ 2, também já está caindo para níveis mais aceitáveis e realistas. E os investimentos internacionais, que são tão necessários para nosso crescimento e para geração de empregos, estão começando a voltar. E o que é mais importante, contrariando as previsões pessimistas, a inflação continua sob controle. O nosso grande compromisso está mantido. Segundo a Fipe, da Universidade de São Paulo, a inflação deste ano não chegará a 10%, um índice parecido como o que tivemos no início do Real e muito abaixo do que se falava antes. Estamos conseguindo vencer a batalha mais importante contra os que atacaram o Real. E essa vitória se deve ao povo brasileiro, que está unido na defesa do Real, da manutenção da estabilidade e contra a volta da inflação. A âncora do Real é o povo, que não quer a volta da carestia. Não é hora de buscar a popularidade fácil. Para o bem do nosso povo, o momento exige pulso firme. O meu governo está cortando gastos, fazendo ajustes, equilibrando suas contas e procurando usar cada vez melhor o dinheiro que arrecada." Locutor: "O governo federal está fazendo uma significativa economia nos seus gastos, com algumas medidas administrativas. Por exemplo: extinção de 101 mil cargos públicos; eliminação do acúmulo de cargos, empregos e funções, o que representa uma economia mensal de R$ 1,500 milhão; com a integração e a informatização da folha de pagamentos, o governo está economizando R$ 1,200 bilhão; com a implantação de um sistema de controle de todas as compras do governo foi possível economizar, no ano passado, R$ 370 milhões; e nos próximos dois anos serão economizados mais R$ 1,500 bilhão." Presidente: "Como você viu, estamos gastando menos e melhor. O dinheiro que economizamos vem do combate ao desperdício e do maior controle das nossas despesas. E é importante dizer: nós não mexemos nas verbas que mantêm as creches, os abrigos dos idosos, as que permitem tirar crianças dos trabalhos penosos. E do mesmo modo, estamos fazendo esforços para manter os recursos dos diversos setores sociais." Locutor: "O programa nacional de cestas básicas distribuía em 1995 um total de 3 milhões de cestas. Em 1998, foram 29 milhões e 800 mil cestas básicas. Agora em 1999, serão distribuídas 30 milhões
ou seja, dez vezes o que se distribuía em 1995. O número de famílias atendidas pelos agentes de saúde em 1994 era de 4 milhões e 200 mil. Em 1998, os agentes atenderam 10 milhões e 900 mil famílias. Em 1999, o programa será ampliado para atender 14 milhões e 690 mil famílias. A merenda escolar chegava, em 1995, a 33 milhões de alunos. Em 1998, esse número pulou para 35 milhões e 300 mil crianças. Em 1999, 37 milhões de crianças receberão mais merenda e de melhor qualidade." Presidente: "Mas as dificuldades que estamos enfrentando trouxeram também um fato positivo: o Brasil está encarando seus problemas de frente. Não podemos adiar soluções. Não é mais possível que um governo, seja ele federal, estadual ou municipal, gaste mais do que arrecada, endividando-se, ameaçando a estabilidade econômica e a tranquilidade das pessoas. Com as reformas administrativas e a da Previdência, nós estamos corrigindo grandes injustiças e eliminando antigos privilégios. É preciso continuar lutando pela reforma tributária, para que haja menos impostos injustos. Para que possamos cobrar mais dos que ganham mais e cobrar menos dos que produzem. E ter mais condições para impedir a sonegação e punir os sonegadores. É preciso continuar lutando para que o Congresso possa fazer a reforma do Judiciário, a reforma política. Porque quando estamos lutando por todas essas reformas, estamos lutando para que o governo gaste melhor o dinheiro que você paga. Para que o seu filho tenha uma educação de qualidade melhor, para que a saúde atenda cada vez melhor, para que o País tenha condições de enfrentar o seu maior problema: o desemprego. O desemprego é um problema mundial e afeta todos os países. Mas isso não serve nem de consolo, nem de desculpa. Se o problema do desemprego é grave
com a inflação seria muito pior, pois seria impossível atrair investimentos para abrir novas fábricas e novos postos de trabalho. Mas não basta só garantir a estabilidade. É preciso fazer mais. E esse governo está fazendo." Locutor: "Os programas de treinamento e qualificação de mão-de-obra do governo já beneficiaram, nos últimos 4 anos, 5 milhões e 700 mil trabalhadores. Só em 1998 foram qualificadas 2 milhões e 400 mil pessoas. Neste ano serão treinados mais 3 milhões de brasileiros. Os programas nacionais de geração de empregos e de agricultura familiar foram ampliados, passando de R$ 600 milhões em 1995 para R$ 2,400 bilhões em 1998, gerando e mantendo nesses quatro anos, um total de 1 milhão e 500 mil empregos. Em 1999, só esses programas deverão ser responsáveis por 690 mil empregos. A reforma agrária neste governo tem uma importância como nunca teve na história do nosso País. Em quatro anos, foram assentadas 287 mil e 500 famílias. Além de promover justiça social, estamos gerando empregos. Nos últimos quatro anos, foram criados 2 milhões e 200 mil empregos diretos e indiretos no campo. E em 1999, com novos assentamentos e projetos rurais, a previsão é de mais 746 mil." Presidente: "Como você pode ver, temos trabalhado duro, e já há perspectivas concretas de boas notícias na geração de empregos. Nos próximos 30 dias será lançado um grande programa de habitação popular para as famílias mais pobres. E atendendo às sugestões dos sindicatos, criaremos novas frentes de trabalho. Com as modificações na relação do real com o dólar, o mercado interno foi fortalecido e nossos produtos se tornaram mais competitivos no mercado externo. Com isso, nossas exportações devem aumentar significativamente, o que irá gerar pelo menos 270 mil novos empregos. Outra notícia importante vem do campo. Este ano o Brasil terá a maior safra de todos os tempos. O campo vai ter mais dinheiro e vai poder consumir mais, gerando mais empregos na agricultura, na indústria, no comércio, nos serviços
em toda a economia do País. E esses são apenas alguns exemplos que mostram a imensa capacidade que têm esse País e seu povo de superar os seus problemas. Ainda na semana passada, apresentei aos ministros e líderes partidários um plano que assegura a estabilidade e prevê
para os próximos anos, investimentos de US$ 165 bilhões no desenvolvimento econômico e social de todas as regiões do Brasil. Meus amigos e minhas amigas, estamos a um passo da celebração dos 500 anos do Brasil. Somos ainda um País jovem, com um longo caminho a percorrer, com imensas possibilidades. Não deixe que as dificuldades, ou qualquer obstáculo, faça você descrer do seu País. Se há uma lição que devemos tirar de toda essa turbulência que enfrentamos nos últimos meses, é a lição da união. Os brasileiros não deixaram o Brasil sozinho e se uniram na defesa do Real e da estabilidade, na busca de alternativas, na construção de soluções. E é assim que devemos permanecer: juntos. Pois é assim que somos mais fortes."





