Íntegra do discurso de FHC
Washington, 10 (AE) - Esta é a íntegra do discurso do presidente Fernando Henrique Cardoso na conferência anual de 1999 do Export-Import Bank dos Estados Unidos:
"É para mim um grande prazer estar aqui em Washington e poder dirigir-me a uma audiência tão representativa. Agradeço o sr. James Harmon, presidente do Eximbank, pela oportunidade que me dá de compartilhar com os senhores algumas considerações sobre a economia brasileira. O sr. Harmon deixou no Brasil, durante sua visita no ano passado, a excelente impressão de alguém pronto a buscar soluções e a construir parcerias.
Vim aqui para lhes dizer como o Brasil vem-se recuperando das recentes turbulências que afetaram a maior parte dos mercados mundiais. Mas antes gostaria de mencionar a boa relação que o Brasil e o Eximbank dos Estados Unidos desenvolveram ao longo das últimas décadas. Essa é uma relação que tem-se mostrado sólida e mutuamente benéfica. E isso foi confirmado com o anúncio do banco, em dezembro passado, de reabertura das linhas de crédito para o setor público brasileiro (suspensas desde 1991). Juntamente com a extensão das operações do Eximbank com o setor privado no Brasil
essa decisão é auspiciosa para o futuro das relações econômicas e comerciais em geral do Brasil com os EUA. Senhoras e senhores, Nos últimos anos, o parque industrial brasileiro vem passando por um processo de modernização cuja magnitude não tem precedente em nossa história. Foram realizados enormes investimentos em infra-estrutura, inclusive na modernização de setores essenciais como transportes
telecomunicações e energia. Estamos levando a efeito um dos maiores programas nacionais de privatização de todos os tempos. Além disso, o processo de integração econômica no Mercosul está transformando nossa região. Todas essas mudanças contribuíram para que se gerassem no Brasil extraordinárias oportunidades de negócios. E isso é particularmente atraente para setores exportadores dos EUA, que são para nossas indústrias importantes fontes de inovação tecnológica. Para nós, o fortalecimento dos laços com os EUA é parte essencial dos esforços para incrementar as exportações brasileiras e assegurar maior participação do Brasil no comércio internacional. Cinco anos de estabilidade e de progressiva abertura da economia ampliaram a competitividade dos produtos e serviços brasileiros no mercado internacional. A preservação da estabilidade econômica e a complementação das reformas estruturais que estamos levando adiante são a chance para que se alcance nosso objetivo maior, que é a construção no Brasil de uma sociedade mais justa e equânime. Por isso, enfrentamos a crise de frente e encontramos a maneira de vencê-la. É o que estamos fazendo. E por isso a economia brasileira está em rápida recuperação. Desde o seu início, o Plano Real interrompeu o processo inflacionário que durante décadas corroeu o poder de compra dos salários e contribuiu para a manutenção de antigas desigualdades sociais no Brasil. Simultaneamente, deu-se início a um processo de reformas estruturais (Previdência, administração pública, fim de monopólios estatais) e estabeleceram-se incentivos ao investimento estrangeiro produtivo. Além disso, decidimos enfrentar logo as deficiências de nosso sistema bancário. Quando a crise da moratória russa complicou a vida dos mercados emergentes, não hesitamos em agir com rapidez. E para isso contamos com o firme apoio do Congresso e da sociedade brasileira em geral. O cenário apocalíptico previsto por alguns especialistas do mercado não se materializou. O governo seguiu basicamente duas linhas de ação: a) um rígido controle na área fiscal e a adoção de um programa de ajustes plurianual e (b) a negociação de um acordo internacional envolvendo organizações multilaterais e países desenvolvidos. Em janeiro, uma série de eventos levou o governo a flutuar o câmbio. A mudança do regime cambial abriu novas perspectivas para ao setor exportador, ao ampliar a competitividade dos produtos nacionais tanto no mercado doméstico como no externo.
Além disso, permitiu a adoção de uma política monetária mais voltada para metas internas e a redução das taxas de juros. O mais importante foi conter a pressão inflacionária e a volta da indexação.
O impacto do câmbio flutuante sobre o setor privado foi bastante menos dramático do que o inicialmente previsto por alguns analistas. Na média, as empresas brasileiras estavam protegidas contra a desvalorização. Nunca houve o risco de uma moratória interna do setor público, já que essa dívida é em reais. Com a redução das taxas de juros, a dívida interna será mantida sob controle. A sociedade brasileira reagiu com prudência e sabedoria diante da possibilidade de uma volta da inflação. Por meio de escolhas cuidadosas, mostrou que atribui grande importância à manutenção da estabilidade econômica.
As metas estabelecidas no acordo com o FMI em termos de inflação estão-se mostrando muito conservadoras. Neste momento, estamos mais próximos de uma inflação de um dígito. Os dados mais recentes (Fipe) indicam uma taxa de 0, 47% para o mês de abril e uma projeção de 7% para 1999. Abaixo, portanto, das expectativas do mercado no início do ano. Outras instituições prevêem taxas ainda mais baixas, e têm elementos sólidos para isso.
Depois de alcançar mais de R$ 2, 20 por dólar em um claro exemplo da tendência dos mercados de reagir excessivamente a turbulências , o Real vem recuperando seu valor.
As taxas de juros estão caindo. E esperamos que cheguem a níveis razoáveis (10% a 12%) até o final do ano. O mercado está trabalhando com níveis de taxas de juros de longo prazo consideravelmente menores do que as taxas fixadas atualmente pelo Banco Central.
Temos indicações claras de que a confiança no longo prazo está aumentando. Sabemos que estamos no rumo certo, mas posso assegurar aos senhores que não há no governo risco de euforia despropositada.
O excesso de otimismo pode ser perigoso estamos conscientes disso , mas o excesso de pessimismo é ainda mais perigoso, já que muitas vezes traz com ele um elemento de profecia auto-realizável.
O comportamento esquizofrênico que tomou conta recentemente dos mercados globais deve ser posto de lado. Deve prevalecer uma visão mais realista da economia.
No Brasil, vamos seguir três linhas de ação básicas para que o País retome os níveis desejados de crescimento: a) um aprofundamento do ajuste fiscal, (b) a adoção de uma política monetária baseada em metas inflacionárias e (c) a continuação das reformas estruturais.
Permanecemos totalmente comprometidos com uma estrita disciplina fiscal, em todos os níveis de governo, inclusive estadual e municipal. Sabemos como a mudança dos padrões de gastos governamentais é essencial e não pouparemos esforços para aprofundá-la.
As metas fiscais estabelecidas com o FMI estão sendo alcançadas. O superávit primário para o primeiro semestre incluindo Tesouro, Banco Central e Previdência Social ficou em R$ 7, 1 bilhões. O superávit do Tesouro foi de R$ 9, 4 bilhões.
Não há lugar para complacência na área fiscal. E aqui o governo não abrirá mão de um controle rigoroso. O governo está pronto a fazer o uso de todos os instrumentos de que dispõe para impedir que haja um retrocesso nessa área.
As reformas estruturais terão seguimento. O governo buscará: a) a adoção da lei de responsabilidade fiscal, (b) a aprovação da legislação necessária para a implementação da reforma da Previdência e para a regulamentação dos fundos de pensão privados, (c) uma reforma tributária, (d) a continuação do programa de privatização.
A reforma tributária é uma prioridade, que pretendemos alcançar a médio prazo. As discussões devem ter início neste ano
para que se defina a melhor maneira de proceder. Estou convencido de que o Congresso brasileiro está pronto para tratar desse assunto com o sentido de urgência que ele merece.
Quanto às privatizações, estima-se que gerem por volta de R$ 37 bilhões em 1999. A recente e bem-sucedida privatização da Comgás demonstrou que o programa manterá seu ritmo.
O investimento estrangeiro direto voltou a ganhar impulso, superando US$ 7 bilhões nos três primeiros meses do ano (US$ 31 bilhões no período de 12 meses até março). Além disso, a maior competitividade dos produtos brasileiros com o sistema de câmbio flutuante deverá levar a uma melhora em nossa balança comercial.
Nessa área específica, entretanto, os resultados até o momento têm sido modestos. Há duas razões principais para isso. Em primeiro lugar, porque a retomada do financiamento das linhas de comércio só se efetivou no final de março. Em segundo, porque as taxas de crescimento dos países latino-americanos e de outras regiões do mundo ficaram abaixo do esperado e os preços de produtos de base estão depreciados.
O bom estado de nossas exportações dependerá, em boa medida, de um crescimento sustentado das economias desenvolvidas e do fim de políticas protecionistas de parte destas últimas. O Brasil, apesar do impacto da recente crise financeira, está comprometido em manter aberta a sua economia. Não há, nem haverá qualquer reversão em nossa política de comércio externo.
O conjunto de medidas que procurei aqui delinear terá um efeito positivo sobre as contas correntes, fazendo com que o déficit recue para um nível inferior à estimativa total de investimento estrangeiro.
Em março último, o governo brasileiro recebeu garantias públicas dos mais importantes bancos credores internacionais de que seria mantido por seis meses o mesmo nível de exposure do final de fevereiro para tomadores de empréstimo brasileiros, na forma de linhas intrabancárias e comerciais.
No que se refere ao PIB, desenvolvimentos positivos recentes justificam uma revisão para cima das taxas fixadas no acordo com o FMI, que indicavam uma retração de 3, 5% a 4% para este ano. As perspectivas econômicas apontam neste momento para uma recessão mais suave do que a que se antecipava. Em uma base trimestral, o PIB do Brasil deverá ser maior no final do ano do que no final do ano passado.
Como os senhores podem ver, há razões para algum otimismo em relação ao futuro da economia brasileira. As perspectivas de uma plena recuperação são sólidas. Estamos retomando o caminho do crescimento sustentado.
Vim aqui para trazer duas mensagens básicas. Primeiro, que as coisas estão caminhando bem e a recuperação tem sido mais rápida e mais tranquila do que o previsto por boa parte dos analistas.
Segundo, que não há nenhum risco de que esses elementos positivos nos desviem do ajuste fiscal e dos objetivos de longo prazo. Quero assegurar-lhes que o governo brasileiro prosseguirá no rumo traçado e levará a bom termo os ajustes e reformas essenciais que estão curso."
JANTAR - Esta é a íntegra do discurso do presidente Fernando Henrique Cardoso durante jantar no Economic Club de Nova York: "Tenho grande satisfação de estar aqui e de me dirigir a este distinto grupo a propósito de temas de política econômica. Esta noite, gostaria de falar-lhes sobre progresso e perseverança, sobre propósito comum e bom senso, sobre os êxitos da economia brasileira e o compromisso do governo brasileiro e
o que é mais importante, do povo brasileiro de continuar esses êxitos. Falarei francamente sobre os desafios que enfrentamos e sobre as soluções que buscamos. Nas últimas décadas, todos nós aprendemos muitas lições. Uma delas é a de que não há motor mais importante para a estabilidade e para o desenvolvimento social do que o crescente consenso global em favor de boas políticas econômicas. Esse novo enfoque, em seu sentido primeiro e mais importante, representa um compromisso com processos que funcionem. As mais ambiciosas teorias e ideologias de todo matiz foram varridas se posso ampliar a frase de Schumpeter por ventos de destruição criativa intelectual. Mesmo as faculdades de economia parecem agora valorizar a pesquisa prática. E ter uma atitude prática com relação aos problemas é essencial para um país como o Brasil, onde muitas das tarefas que devemos realizar têm de ser atacadas com um profundo sentido de urgência. Mas sabemos que a urgência nos problemas sociais não pode nunca ser um pretexto para políticas econômicas irresponsáveis, que só contribuem para piorar os problemas. No Brasil, alcançamos um considerável progresso econômico nos últimos anos sobretudo porque aplicamos as políticas econômicas corretas. Nada de sonhos de soluções de facilidade de atalhos mágicos. Em vez disso, temos procurado manter em boa condição os aspectos básicos da economia reforma fiscal e política monetária forte, investimentos de longo prazo em capital humano e maiores oportunidades, liberalização das regras de comércio e descentralização dos processos de decisão. Em um momento em que os mercados modernos vinculam os nossos destinos e as nossas fortunas, é preciso que o mundo saiba mais sobre o êxito alcançado pelo povo do Brasil. Nos últimos cinco anos, derrubamos a inflação e a mantivemos sob controle. Em 1994, quando os senhores ainda nem sonhavam em ter o índice Dow Jones na marca dos 10.000 pontos, nossa taxa de inflação subia a mais de 40% ao mês. Os tempos mudaram. Começamos por romper o ciclo da espiral inflacionária, da queda do poder aquisitivo e de demandas persistentes de proteção contra os aumentos de preço. O Plano Real funcionou. Pusemos fim à cultura da indexação. A estabilidade está trazendo profundos benefícios aos brasileiros, especialmente aos mais pobres. Na semana passada, a Cepal publicou um estudo que confirma que a pobreza no Brasil está recuando. Entre 1990 e 1996, o número absoluto de pessoas com renda mensal inferior a R$ 50 (cerca de US$ 35) caiu de 33 milhões para 21,4 milhões. O número de pessoas com menos de R$ 100 mensais reduziu de 67,5 milhões para 55 milhões. De 1993 a 1996, a proporção de domicílios pobres caiu de 37,1% para 28,6%. Esse é um dos resultados mais importantes do Plano Real. Brasileiros que antes estavam excluídos do mercado de consumo passaram a ter acesso a bens e serviços com os quais antes só podiam sonhar. As dificuldades enfrentadas no período mais recente, em função das turbulências internacionais, tornaram o progresso social mais difícil. Mas a tendência predominante está fora de dúvida: o povo brasileiro está-se beneficiando amplamente com a estabilidade econômica e se beneficiará ainda mais no futuro. Como demonstrado pelos dados estatísticos, não há contradição entre progresso social e eficiência econômica. Nós buscamos o êxito econômico em nome da justiça social. Realizamos, preventivamente, uma reforma de nosso setor financeiro já há alguns anos. Isso resultou ser extremamente importante, não apenas para o Brasil, mas também para o sistema financeiro global. Impulsionamos e continuamos a impulsionar as reformas estruturais. Liberalizamos as regras de comércio e estamos conduzindo, com êxito, um dos maiores programas de privatização de todos os tempos, provavelmente o maior da história do capitalismo. Precisamente por causa da correção de nossas políticas, o otimismo que sentimos quanto ao nosso futuro está acendendo uma renovada confiança no Brasil além de nossas fronteiras. O Brasil está atraindo níveis sem precedentes de investimento estrangeiro. A maioria das principais empresas transnacionais está estabelecida no Brasil Empresas internacionais têm anunciado novos investimentos. Sabemos, tanto quanto outros, que a prosperidade do Brasil dependerá de estarmos vinculados, e não isolados dos processos financeiros do mundo. No entanto, no ano passado, o Brasil viu o seu progresso ameaçado pelo contágio da crise russa, que por sua vez era um desdobramento da gripe asiática. Sabíamos que enfrentávamos aí uma situação séria, em parte por nossos próprios problemas internos, em parte por causa de fatores exógenos sobre os quais tínhamos pouco ou nenhum controle. Sabíamos que estávamos enfrentando um desafio que não estava limitado ao Brasil, mas que refletia, em ampla medida, problemas enraizados na estrutura do atual sistema financeiro internacional. Quero falar-lhes sobre como o Brasil reagiu a esse desafio e sobre como estamos conseguindo superá-lo. Antes, porém, gostaria de compartilhar com os senhores e senhoras algumas de minhas preocupações com relação ao aspecto internacional das recentes turbulências. Os mercados tendem a recompensar as economias cujos elementos fundamentais estão fortes. E elementos fundamentais fortes exigem políticas corretas aplicadas rigorosamente ao longo de tempo. Para que uma democracia possa aplicar essas políticas, elas necessitam que o apoio do povo se mantenha a longo prazo. No entanto, enquanto as políticas corretas exigem mais paciência, os mercados financeiros vão se tornando mais impacientes. A cada segundo de cada dia útil, fazem-se juízos sobre o desempenho do País, às vezes apressadamente, às vezes impulsivamente. Pode-se perguntar: como conciliar as reações de curto prazo dos mercados com os interesses de longo prazo das economias e das democracias? Essa pergunta é extremamente complexa e ganhou particular relevo em razão dos eventos dos últimos meses. Um ponto-chave do novo enfoque econômico é a necessidade de desenvolver políticas estáveis voltadas para o médio prazo. O futuro não está mais em sonhos de transformação revolucionária ou em intermináveis pacotes de estímulo de curto prazo ou em controles de preço. É necessário que o público compreenda, apóie e participe dos enfoques bem-sucedidos. Para uma política econômica saudável, que deve necessariamente ver as coisas em perspectiva de longo prazo, o mero assentimento transitório não é suficiente. No entanto, à medida que se expande o horizonte de tempo na política, observamos precisamente a crescente volatilidade do capital. O capital financeiro movimenta-se com rapidez e sem fricção, limitado apenas pela velocidade das conexões de Internet dos operadores de mercado. Quero salientar, contudo, que minhas preocupações não farão irromper políticas irresponsáveis ou de estilo populista na calada da noite. Minhas preocupações vêm das reflexões de um homem que já viu o lado bom, o lado ruim e as variações imprevisíveis do pensamento do mercado financeiro. Mas voltemos a janeiro. Tínhamos, de fato, enfrentado alguns revezes no plano fiscal, que se revelaram momentâneos. Nosso déficit de transações correntes se ampliava, apesar da desaceleração da economia. Mas estávamos tratando dos problemas reais de forma lúcida. E então veio o vírus. Como numa mensagem de correio eletrônica com o vírus Chernobil, a teoria do contágio ameaçava varrer em um instante o que havíamos construído ao longo de vários anos. O medo era simples: poderia haver um desastre, o vírus poderia difundir-se e, então, seria cada um por si. A cada semana, as previsões se tornavam mais obscuras: temiam-se alta inflação e profunda recessão. De repente, o Brasil estava no centro da tela do radar. Capas de revista, grupos de conversa na Internet, seminários na área financeira todos voltavam-se para a crise no Brasil. Mas nós soubemos responder com presteza e com determinação. Com o apoio firme do Congresso, as medidas necessárias foram adotadas.Aplicamos fortes medidas restritivas no plano fiscal e negociamos um amplo acordo internacional. Pode ser difícil, às vezes, para pessoas em outros países, por mais que sejam bem informadas, compreender a dimensão dos esforços realizados pela sociedade brasileira. Mas quero dar-lhes uma idéia. Imaginem se os Estados Unidos estivessem à beira de uma recessão e, ainda assim, o Congresso precisasse aprovar um aumento de impostos de cerca de US$ 250 bilhões. É dessa magnitude o esforço que estamos fazendo no Brasil. No momento atual, a confiança está-se recuperando. Após alcançar um recorde de baixa de cerca de R$ 2,20 por dólar, o Real vem-se recuperando de forma constante e está agora, novamente, na faixa entre 1,70 e 1,60 por dólar. O sistema bancário atravessou a tempestade, em grande medida graças às reformas que havíamos realizado. Assim, o impacto da mudança no regime cambial foi menor do que o que se temia inicialmente. As previsões de inflação estão sendo revisadas para baixo a cada semana.A disciplina fiscal segue firme, e seguirá firme. Estamos tomando empréstimos com êxito nos mercados internacionais. Nunca houve qualquer risco de moratória da dívida interna. Ao longo desse processo, alcançamos maior disciplina fiscal ao mesmo tempo em que soubemos preservar os nossos objetivos na área social. Não nos esquecemos, nem por um segundo, da razão pela qual estamos nos esforçando para equilibrar as contas: para promover um ambiente favorável ao crescimento econômico, o que é essencial para criar empregos e para assegurar maiores oportunidades para todos os brasileiros, especialmente os mais pobres. Fomos capazes de fazer isso porque contamos com a confiança e a coragem do povo brasileiro. Os consumidores brasileiros, que têm a memória dos desastres da inflação descontrolada, mostraram que compartilham o nosso compromisso inamovível com a estabilidade de preços. Sabemos que estamos no caminho certo. Mas posso assegurar-lhes que não existe o menor perigo de qualquer tipo de euforia em meu governo. O Brasil se mantém alerta. Um mecanismo de metas de inflação, a ser plenamente estabelecido ao longo deste ano, será a âncora da política econômica. Continuaremos a promover a disciplina fiscal, em todos os níveis de governo. Isso é fundamental e o governo está plenamente consciente disso. O fato de que o capital estrangeiro está retornando ao Brasil não é razão para que sejamos complacentes. Os resultados alcançados no primeiro trimestre deste ano demonstram claramente a nossa determinação. Nesse período, o Orçamento do governo federal compreendendo o Tesouro, o Banco Central e a Previdência Social teve um superávit acima do que era esperado, de cerca de R$ 7 bilhões. Faremos tudo o que for necessário para continuar nesse caminho. E continuaremos a avançar nas reformas estruturais. A Lei de Responsabilidade Fiscal, a reforma tributária, a continuação da reforma da Previdência e da privatização todas essas são mudanças em andamento e tencionamos realizá-las com energia. Essas mudanças não se concluirão ontem, como os mercados impacientes poderiam talvez desejar. Mas é bastante claro, para quem tenha os olhos abertos para o que está ocorrendo no Brasil, que o impulso de mudança é forte e irreversível. Manteremos a inflação sob controle. Isso não é negociável. E já estamos colhendo os benefícios da perseverança. Recentemente, o Tesouro lançou US$ 3 bilhões em títulos, dos quais US$ 2 bilhões em cash e US$ 1 bilhão em troca de títulos de maturação a curto prazo. As empresas privadas também começaram a recuperar o acesso ao financiamento internacional por meio de lançamentos de títulos com êxito. Nossa posição em matéria de créditos comerciais internacionais também está-se recuperando. Ainda se fará sentir o seu pleno impacto sobre os resultados da balança comercial, e estamos certos de que esses resultados melhorarão nos próximos meses. Estima-se que o déficit de transações correntes em 1999 será inferior ao volume de investimento estrangeiro direto recebido. O investimento direto estrangeiro continua sem interrupção. No primeiro trimestre, tivemos um volume de mais de US$ 7 bilhões. No período de 12 meses terminado em março último, o total de investimento estrangeiro direto alcançou a cifra impressionante de US$ 31 bilhões. Temos todas as razões para acreditar que a retração de nossa economia este ano será muito menor do que os 3,5% previstos em nosso acordo com o FMI. Espera-se que, para o final do ano, já teremos retomado o crescimento. Em termos trimestrais, no fim do ano, o PIB brasileiro estará em nível superior ao do final de 1998. A privatização está avançando e os resultados mais recentes dão-nos razões adicionais para sermos otimistas. As taxas de juros já estão caindo, e isso é essencial para a retomada do crescimento. Estamos, portanto, preparados para um novo ciclo de crescimento econômico sustentado, com base na estabilidade e nas reformas estruturais. A integração na economia mundial é crucial para os nossos projetos. Isso exige conhecimento e informação. E o conhecimento é a palavra-chave em minha mensagem final aos senhores. Quando sabemos o que estamos fazendo, quando sabemos que estamos no caminho certo, queremos que o mundo todo saiba disso. Isso é precisamente o que acontece no Brasil. No final deste milênio, há uma história notável e positiva para ser contada sobre as Américas. A democracia se fortalece. Não temos guerras, ao contrário do que ocorre em outros continentes. Não temos conflitos regionais não-resolvidos. Estamos trabalhando pela integração dentro e fora de nossa região. O Brasil sabe que é e deve ser um ator importante nessa história.Somos uma das dez maiores economias do mundo e a primeira da América Latina. Produzimos mais de 1,5 milhão de carros no ano passado e nossa colheita de grãos em 1998-1999 ultrapassa os 83 milhões de toneladas, a maior de nossa história. Somos o 11.º maior mercado para a exportações norte-americanas. Em 1998, os EUA exportaram mais de US$ 15 bilhões para o Brasil. Empresas norte-americanas são investidores tradicionais em setores-chave de nossa economia. Tudo isso são evidências da sólida parceria entre o Brasil e os EUA.Uma parceria que se constrói com base no respeito mútuo, nos valores compartilhados e nos interesses convergentes. Cada um de nossos países tem a ganhar com a prosperidade do outro.Uma economia vigorosa nos EUA é um fator importante para o crescimento no Brasil. Um Brasil forte oferece aos EUA melhores oportunidades de negócios. Temos todas as razões para acreditar que essa parceria será uma das mais destacadas histórias de êxito do século 21. Uma história de liberdade, pluralismo e desenvolvimento econômico. Não estamos presos a ideologias rígidas, à esquerda ou à direita. Quero assegurar-lhes que não permitirei que qualquer tipo de complacência se insinue no cenário brasileiro. Estamos dedicados a mudar de forma definitiva nossos regimes fiscal e monetário. Com esses alicerces, o novo século será um tempo de crescente prosperidade para todos os brasileiros. Um tempo de novas tecnologias, de novos padrões de relação entre os países e de níveis sem precedentes de desenvolvimento. Acredito haver-lhes dado elementos que demonstram que o Brasil está bem preparado para preservar a estabilidade econômica e para continuar no caminho do crescimento e de maior justiça social. Queremos ser um dos protagonistas dessa nova era, e nos estamos preparando para isso. Muito obrigado."





