Insulina é desviada de postos de saúde de SP
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quarta-feira, 01 de dezembro de 1999
Por Gabriela Athias 
São Paulo, 01 (AE) - Por falta de controle da Secretaria de Estado da Saúde, 600 frascos de insulina humana foram desviados de três postos da zona sul de São Paulo, entre os dias 23 e 26. Uma mulher, que se identificou apenas como Cida e disse trabalhar em um posto da região, conseguiu convencer os funcionários - e, em alguns casos, até o diretor da unidade - a entregar o medicamento e depois sumiu. O mais grave é que, ao receber o remédio, ela assinou o recibo com o apelido e ninguém desconfiou da farsa.
"A secretaria tem mecanismos de controle", diz o coordenador de Saúde da secretaria na Grande São Paulo, Oswaldo Mikio. "O problema é que esses funcionários não seguiram os procedimentos." Para obter insulina, a mulher, que já foi identificada como Conceição Aparecida Kavakubo, aproveitou-se da escassez de remédios na rede pública: ofereceu em troca o antibiótico Amoxilina, que não faz parte do Programa Dose Certa e, por isso, estava faltando no estoque havia pelo menos dois meses.
Prejuízo - O problema é que em troca dos 600 frascos de insulina, avaliados em mais de R$ 11 mil, ela ofereceu apenas 300 comprimidos do antibiótico, cujo valor é de cerca de R$ 3 mil. Além do prejuízo, a secretaria, que abriu sindicância para apurar a responsabilidade dos funcionários das farmácias e dos diretores dos postos, quer saber a procedência do Amoxilina. À funcionária do posto do Jardim Castro Alves, por exemplo, Conceição disse que o antibiótico era uma "doação" e nem assim provocou desconfiança.
A farsa só foi descoberta no dia 29, quando ela tentou aplicar o golpe no quarto posto de saúde. As funcionárias das farmácias dos três postos (Jardim República, Castro Alves e Icaraí) desconfiaram e começaram a trocar informações sobre a mulher, que, acompanhada do marido, ia aos locais num carro particular.
Em cada um desses lugares, Conceição Aparecida contou uma história. No Jardim República e no Icaraí, ela disse trabalhar no posto do Jardim Castro Alves. No Castro Alves, disse trabalhar no Jardim Marcelo. Na verdade, ela é funcionária lotada no Ambulatório de Especialidades do Jardim Ibirapuera, mas trabalhava como recepcionista no posto do Jardim Paraisópolis.
Comprovação - Somente no dia 29 a diretora do posto de Paraisópolis, Bárbara Regina Borrego, foi procurada pelos diretores dos três postos que entregaram insulina - e o golpe ficou então comprovado. Nesse mesmo dia, à tarde, Conceição Aparecida pediu demissão, mas a insulina não foi recuperada.
Uma funcionária do Jardim República chegou a ligar para o posto de Castro Alves para checar a origem do antibiótico. Uma mulher, identificada como Dora, disse desconhecer a procedência no remédio, mas confirmou já ter feito trocas com uma funcionária do Paraisópolis, que, "aliás, estava acostumada a fazer isso".
A diretora do Núcleo 2 de Saúde, Aparecida Yamada, mandou recolher os antibióticos e enviou-os para exame no Laboratório Adolfo Lutz. A empresa Biofarma Farmacêutica, que produz o Amoxilina, entregou um laudo à secretaria garantindo que esse lote não apresenta irregularidades. Há suspeitas de que Conceição Aparecida participe da rede que alimenta o mercado paralelo de remédios.


