O Instituto da Criança do Hospital das Clínicas, de São Paulo, desenvolveu uma estratégia que conseguiu reduzir o uso de anestésicos em crianças que precisam ser submetidas a tomografias. Desde maio, quando o instituto conseguiu um aparelho de tomografia computadorizada, há exames radiológicos em crianças dispensando o uso de anestésicos.
Em seis meses foram realizados 650 exames. Em 84% deles, foi possível dispensar qualquer tipo de anestésico. Os outros 16% usaram um tipo de anestésico via oral, em pequenas quantidades. A presença de um anestesista foi solicitada para 1% dos casos.
‘‘Começamos a trabalhar usando a literatura e a experiência de outras unidades que mostravam alto índice de sucesso ao fazer o exame e evitar a sedação. É a aproximação comportamental’’, diz o responsável pelo setor de neurorradiologia pediátrica do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Marcelo Valente.
E acrescenta: ‘‘Conversamos com as crianças, explicamos tudo e tentamos convencer as crianças a deitar na cama e ficar quietas’’. A tomografia é um raio X avançado. A máquina é ligada a um computador. Ao ‘‘fotografar’’ partes do corpo, faz cortes diferentes de um local permitindo avaliação precisa por parte do médico. ‘‘Às vezes, a criança precisa passar por um exame em que é necessário injetar contraste. O contraste é intravenoso. A criança precisa ficar com uma agulha na veia e quieta. Nesses casos, um sedativo pode ajudar’’, diz Valente.
O exame é indolor, mas requer imobilidade completa do paciente, comportamento difícil de ser obtido com crianças, principalmente as menores de três anos. Muitas vezes, a única maneira de se realizar o exame era sedar as crianças. ‘‘Além do bate-papo, nossa sala de radiologia possui luz regulável. É possível deixar a sala escura, enquanto converso com a criança pelo microfone. Ela vai ficando com sono e dorme. Aí fazemos o exame. Se ela acorda e se mexe, aguardamos outra soneca e terminamos. Aqui as crianças têm tempo para ser examinadas com calma’’.
Antes de o Instituto da Criança ter seu próprio aparelho, as crianças faziam exames do serviço geral de radiologia do HC-FMUSP. Atualmente, o instituto providencia exames para os internos do hospital, para conveniados e para pacientes de outros médicos.
Para atender crianças, uma boa dose de criatividade pode ajudar. Um procedimento simples a princípio pode requerer paciência e capacidade de persuasão de uma equipe inteira. Na tomografia, por exemplo, o aparelho vira a ‘‘caminha mágica’’, ou ‘‘a nave espacial’’. As roupas de chumbo para os acompanhantes são as ‘‘roupas de astronauta’’ e a equipe, uma turma de tios.

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