Insetos ajudam a desvendar assassinatos
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quarta-feira, 24 de novembro de 2004
Evanildo da Silveira<br>Agência Estado 
São Paulo- Os insetos pertencem ao grupo animal com o maior número de espécies descritas pela ciência - mais de um milhão. Na sua relação com o homem, muitos causam problemas, como os que destroem culturas agrícolas, ou causam doenças, e outros são benéficos, como os que polinizam as plantações, aumentando as colheitas. Há um grupo, no entanto, que presta um serviço bem específico. São os necrófagos, que podem ajudar a desvendar crimes como assassinatos.
Necrófagos são animais que se alimentam de tecidos orgânicos em decomposição, como os de cadáveres. É essa característica que a entomologia (estudo dos insetos) forense usa para auxiliar em investigações médico-criminais. Embora seja uma ciência bastante difundida em alguns países desenvolvidos, ela é recente no Brasil. Os estudos no País ainda estão na fase de levantamentos das espécies de insetos necrófagos e de seus comportamentos e ciclos biológicos.
Na Europa e nos Estados Unidos, no entanto, a área está bem mais avançada. ''Lá, os entomologistas forenses são frequentemente chamados para depor em julgamentos'', conta o zoólogo Cláudio José Von Zuben, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Rio Claro, no interior de São Paulo, um dos pioneiros dessa área no Brasil. ''Esses profissionais, por meio de evidências entomológicas que encontram em cadáveres, podem ajudar a desvendar como, onde e quando a morte ocorreu e se a causa foi natural, acidental ou consequência de um crime.''
Uma das principais informações que os insetos necrófagos podem fornecer sobre um corpo é o chamado intervalo pós-morte (IPM), ou seja, o tempo decorrido entre a morte e o encontro do cadáver. A partir do terceiro dia, uma sucessão de insetos e outros artrópodes, como ácaros e aranhas - que são aracnídeos-, começa a colonizar o corpo em decomposição, processo que pode se estender por até três anos.
As primeiras são as moscas varejeiras, que chegam para se alimentar ou depositar ovos ou larvas. ''Após alguns dias de decomposição, outras espécies de artrópodes passam a predominar, como os besouros e visitantes acidentais, como borboletas, ácaros, aranhas e vespas'', explica o zoólogo Leonardo Gomes. ''Já no processo final de decomposição do cadáver, em que se encontram ossos e pedaços de tendões surgem outras espécies de besouros.''
De acordo com Zuben, a estimativa do IPM baseia-se na comparação de dados, já conhecidos dos cientistas, sobre o desenvolvimento de insetos, do ovo até a fase adulta, coletados no corpo ou próximo dele. ''Essa análise também leva em conta as condições climáticas recentes (nos últimos dias, semanas ou até meses) do local da descoberta do cadáver'', explica. ''Isso porque o desenvolvimento de estágios imaturos de insetos depende da temperatura e do clima.''
Reunindo todos esses fatos, pode-se estimar o tempo de vida dos diversos insetos coletados no cadáver ou nas proximidades e, a partir, daí calcular o IPM. ''Eles podem indicar se o corpo foi deslocado do local original de um eventual crime, caso uma das espécies não ocorra naturalmente onde o cadáver foi achado'', diz Gomes.


