Júlio Ottoboni
Agência Estado
De São José dos Campos
O segundo fracasso consecutivo do Veículo Lançador de Satélites (VLS) levou a direção do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) a cancelar o programa de microssatélites de aplicações científicas, conhecidos pela sigla Saci, de sua responsabilidade. Os dois aparelhos produzidos até o momento, num valor total de US$ 6,3 milhões, foram perdidos. A série Saci levaria ao espaço experimentos múltiplos dos institutos e universidades brasileiras, escolhidos pela Academia Brasileira de Ciência.
O insucesso do VLS, que foi teledestruído 3,30 minutos após ser lançado provocou uma alteração na balança da história espacial brasileira. Agora, o País amarga a perda de três satélites e dois lançadores. O último deles ocorreu há dois meses, quando Saci-1 entrou em órbita mas não respondeu aos telecomandos. Em contrapartida, o Brasil tem três satélites no espaço em perfeitas condições funcionais. Porém, todos eles foram colocados no espaço por foguetes estrangeiros.
O próximo satélite científico com participação do Inpe será feito em parceria com a França. O VLS tentará colocá-lo no espaço, no segundo semestre de 2001. A possibilidade de se contratar um lançador qualificado no mercado internacional para colocar em órbita a série Saci foi descartada pelo alto custo da operação. Os cálculos preliminares mostram que se gastaria cerca de US$ 15 milhões neste processo, cerca de dez vezes mais que o preço do Saci-2.
O Inpe e o Centro Técnico Aeroespacial (CTA) afirmam que esse processo ajudou no aperfeiçoamento de novas tecnologias espaciais. Mas o centro militar está sofrendo uma grave perda de quadros qualificados por questões salariais.
As equipes de resgate dos destroços do VLS voltaram ontem pela manhã a vasculhar a região de queda dos destroços. Os helicópteros da Força Aérea Brasileira (FAB) já conseguiram identificar, na costa do Ceará, a área de impacto das partes do foguete.
A aeronáutica informou que a queda ocorreu dentro da zona de segurança estabelecida em projeto. O VLS, que levava a bordo o Saci-2, foi autodestruído no final da tarde de anteontem quando se constatou um defeito no segundo estágio de seus motores. O propelente sólido da parte defeituosa deixou de acender e, fora de controle, o veículo teve que ser explodido no ar.
O CTA fará análises técnicas das partes recolhidas. Haverá uma tentativa de se de descobrir a razão do defeito dentro de um prazo aproximado de 30 dias. O primeiro foguete foi perdido em novembro de 1997 por uma falha semelhante. Um dos motores do primeiro estágio deixou de acender por problemas nos ignitores da malha pirotécnica.
Os primeiros minutos de lançamento chegaram a iludir a multidão que acompanhava a contagem regressiva no Centro de Lançamento de Alcântara (MA), tal a eficiência dos quatro motores iniciais. O brigadeiro Tiago Ribeiro só fez a comunicação oficial do fracasso 1h20 mais tarde, mesmo tendo sido o responsável pelo acionamento do comando de teledestruição. Segundo uma versão oficiosa do atraso, o militar teria se emocionado muito e passado mal.
A cobertura dos órgãos de imprensa nacionais e estrangeiros presentes no evento acabou comprometida por alguns defeitos nas linhas telefônicas, que não aceitavam a transferência de dados via Internet, sobrecarregada.
Outra pane que gerou preocupação foi com a falta, por duas vezes, de energia elétrica em parte dos prédios do centro militar. A operação de ignição dos motores foi atrasada em dez minutos. O sistema elétrico local não é servido pela concessionária de energia do Maranhão, mas sim por geradores situados ao lado do prédio principal.Com o fracasso do Saci-2, destruído anteontem, centro cancelou o programa de microssatélites; prejuízo com os dois aparelhos passa de US$ 6 milhões
Dida Sampaio/AEFRUSTRAÇÃOO Veículo Lançador de Satélite foi teledestruído três minutos após o lançamento, em Alcântara (MA)

mockup