São José dos Campos, SP, 20 (AE) - O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) receberá, nas próximas horas, as imagens do Satélite de Aplicações Científicas (Saci-1) feitas pelas câmeras do Comando de Defesa Aeroespacial Norte-Americano (Norad), órgão do Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Essas fotografias são fundamentais para saber as chances de funcionamento do aparelho. O diretor do Inpe, Márcio Nogueira Barbosa, conseguiu que o assunto fosse priorizado pela Administração Nacional de Atmosfera e Espaço (Nasa).
O funcionamento ou não de sistemas vitais do Saci poderão ser identificados a partir das imagens feitas pelos radares do Norad. Somente desta forma os técnicos do Inpe terão respostas para dúvidas que ainda persistem. As fotos revelarão se os três painéis solares estão abertos e a posição do satélite em relação ao Sol. Entretanto, os dados transmitidos pelo órgão norte-americano já trouxeram algumas esperanças. "Dá para descartar a hipótese do satélite estar perdido", comentou o gerente do programa de satélites de aplicações científicas, Himilcom Carvalho.
O Norad monitora os objetos que se encontram em torno do planeta e já detectou o Saci em sua órbita. O radar está enviando periodicamente informações sobre a órbita desenvolvida pelo satélite brasileiro. Segundo Carvalho, desde domingo os dados transmitidos pelo radar estão mais estáveis e precisos, o que possibilitou o estabelecimento correto dos horários das passagens do aparelho sobre o território brasileiro. Desta forma
os técnicos do instituto podem enviar os sinais de comando de funcionamento do Saci com maiores chances de acerto, a partir das antenas de Alcântara e Natal.
O Saci está classificado como microssatélite. Essa categoria abrange os equipamentos até 60 quilos. O que mantém o satélite funcionando em órbita são suas baterias recarregáveis, que obtém carga adicional utilizando a energia solar. Os raios do sol são transformados pelas células do painel solar em energia armazenável. O equipamento será considerado perdido em termos de recuperação técnica caso esses painéis estejam fechados e não houver qualquer resposta do computador de bordo até o final de semana, quando termina a carga das baterias.
O satélite científico foi desenvolvido e construído ao longo do último ano no Inpe, com tecnologia brasileira. O projeto foi financiado pela Financiadora de Projetos (Finep), órgão do governo federal, e custou R$ 4,6 milhões. O valor gasto está um pouco abaixo da faixa dos equipamentos de sua categoria, pois parte de sua tecnologia migrou de outros satélites produzidos pelo Inpe. Cerca de 60% de seus componentes foram produzidos pela indústria nacional. O Saci passou por diversos testes de qualificação nos laboratórios do centro científico.
O satélite foi ejetado no espaço na madrugada do dia 14, pelo foguete chinês Longa Marcha 4B. Desde então, está sem funcionar e sequer atende aos telecomandos enviados. O aparelho seria responsável pela coleta de informações sobre anomalias atmosféricas, como as bolhas ionosféricas (falhas na alta atmosfera), explosões e emissão de partículas solares, geomagnetismo, raios cósmicos. Os experimentos a bordo do satélite foram selecionados pela Academia Brasileira de Ciência, com colaboração internacional em parceria com Unicamp e Inpe. Um outro satélite científico, o Saci-2, será lançado pelo Veículo Lançador de Satélites (VLS), no final de novembro, da Base de Lançamento de Alcântara, no Maranhão. O Inpe tem um sistema simulador de satélite que reduz muito os riscos de falhas no funcionamento do equipamento. "Há muitos casos que os grupos conseguem recuperar os satélites, como aconteceu com o satélite do laboratório de Los Alamos", explica José Angelo Neri, do Inpe.

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