Inimigo dentro do próprio corpo
PUBLICAÇÃO
domingo, 12 de agosto de 2007
Chiara Papali<br> Reportagem Local 
Com apenas oito horas de vida, Gabriela Pedroso dos Santos, hoje com um ano e sete meses, precisou recebeu um marcapasso. A menina representa uma pequena parcela de bebês que têm lúpus neonatal, transmitido pela mãe, e apresentam uma alteração no coração chamada bloqueio átrio ventricular total (BAVT). Foi o problema na filha que fez a mãe, Daniela Pedroso, descobrir que tinha lúpus.
O lúpus é uma das doenças auto-imunes, em que os anticorpos se voltam contra o organismo. ''O próprio corpo é considerado agente estranho pelo sistema imunológico'', explica a farmacêutica bioquímica Rosália Hernandes Fernandes Vivan, professora da UniFil. Segundo a reumatologista pediátrica Margarida Fernandes Carvalho, professora da Universidade Estadual de Londrina (UEL), é uma patologia tão complexa que pode apresentar lesões tanto em algumas poucas células, quanto em órgãos ou sistemas inteiros.
A reumatologista explica que a manifestação pode ser leve, com inchaço e dores articulares, ou grave, com lesões renais e cardíacas. A boa notícia, segundo ela, é que hoje ''o prognóstico melhorou muito'' e a doença não tem mais altas taxas de mortalidade como há 20 anos. ''A partir da década de 80, com o desenvolvimento da reumatologia, foram descobertas novas terapias e medicamentos, e a sobrevida é de mais de 30 anos''.
A doença é rara, com incidência de 12 a 30 casos para cada 100 mil habitantes. Entre os casos, é mais comum em mulheres, em uma proporção de 9 para 1. Também é mais frequente e mais grave em asiáticos e negros. Doença crônica, o lúpus tem seus períodos de remissão e exacerbação. ''Nunca se declara que o paciente está curado, mas ele pode passar por grandes períodos de remissão'', explica a médica.
Alguns sintomas, como o eritema malar, mancha vermelha no rosto que lembra a forma de uma borboleta, são bem característicos, mas o diagnóstico é feito quando o paciente tem quatro ou mais dos critérios da doença (veja quadro).
A reumatologista lembra que o lúpus é de causa desconhecida, mas pesquisas já mostram que fatores genéticos, ambientais e hormonais parecem ser importantes na origem e na evolução da doença. A predisposição genética, por exemplo. ''A concordância da doença é de 67% em gêmeos monozigóticos'', aponta.
Alguns trabalhos também mostram que vírus e bactérias pioram a evolução do lúpus. ''Os pacientes (com lúpus) devem evitar ao máximo pegar infecções'', alerta. Há ainda pesquisas que mostram que os estrógenos (hormônios femininos) aumentam a resposta a doença, e a testosterona (hormônio masculino), diminui. ''Mas quando o homem tem a doença, normalmente é mais grave'', aponta a médica. Alguns medicamentos, como anti-convulsivantes, também podem causar alteração imunológica e levar ao aparecimento do lúpus.
Entre os outros tipos de doença auto-imune, segundo Rosália, as mais conhecidas são a diabetes tipo 1, em que as células do pâncreas são destruídas e o órgão não consegue mais produzir insulina, e a esclerose múltipla, que acomete o sistema nervoso central, causando incapacidade neurológica.


