Paris, 09 (AE) - A Inglaterra está declarando uma "guerra comercial" à França, após a decisão do governo francês de não suspender o embargo sobre a carne bovina britânica. Essa decisão corresponde também a um "não" francês à Comissão Européia, cujos técnicos sanitários e cientistas, depois de numerosas análises e exames, haviam suspendido todas as restrições à comercialização da carne britânica nos quinze países da União Européia. Por isso, Bruxelas está protestando, através de seu comissário encarregado da saúde e da proteção dos consumidores, David Byrne, convencido que se trata de um "desafio à lei da União Européia".
A decisão, que provocou uma "forte irritação" entre as duas capitais, Paris e Londres, poderá tornar-se o tema principal da reunião européia que começa amanhã (10), em Helsinque, onde se deveria discutir, prioritariamente, defesa européia e abertura da União Européia para outros países europeus.
A posição assumida pelos franceses foi também muito criticada pelo primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Tony Blair, que a definiu como "totalmente errônea", quando informado por telefone pelo próprio primeiro-ministro da França, Lionel Jospin. Por sua vez, o chefe do governo francês justificou a manutenção do embargo dizendo que o essencial é garantir a saúde dos consumidores, mesmo tendo de assumir os inconvenientes decorrentes da postura de seu governo. Para o primeiro-ministro britânico, a carne britânica encontra-se hoje entre as mais sãs do mundo. A Comissão Européia estuda a possibilidade de abrir um processo acelerado contra a França na Corte Européia de Justiça. A França tem prazo até terça-feira para dar explicações satisfatórias sobre sua decisão, antes da abertura do processo.
O governo francês citou o direito de precaução para justificar a decisão adotada por "ausência de garantias suficientes". A reação da imprensa britânica é considerável e alguns jornais falam de uma "grande humilhação" infligida aos britânicos. Na opinião pública o choque é o mesmo e os ingleses prometem retomar o boicote aos produtos franceses no país. Além da França, também a Alemanha mantém o embargo, enquanto nos outros países onde o bloqueio foi levantado a importação de carne bovina inglesa não é significativa.
Já o ministro do Exterior francês, Hubert Védrine, preocupado com a evolução da discórdia entre os dois países, prometeu "tudo fazer para circunscrever essa crise", mas defende a posição de seu governo dizendo que essa decisão é "muito importante para o futuro dos consumidores europeus". Na França, constata-se um amplo consenso nas áreas política e sindical. A posição francesa foi definida através de acerto entre o governo socialista e o presidente da República gaullista, apoiada pelos parlamentares da oposição, mas também organizações agrícolas. A rejeição francesa baseia-se nos trabalhos técnicos da Agência Francesa de Segurança Sanitária e Alimentar, que constatou a existência de "riscos plausíveis" de contaminação da carne bovina inglesa pela "doença da vaca louca".

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